Categoria: Odisseu Kapyn

Nos Tempos do Cinema Raimunda

Quem já está na casa dos 30 anos se lembra muito bem de como era o cinema nacional nas décadas de 70 e 80. Era um festival de sacanagem. A filosofia de nossos cineastas era a de que para o filme ter público, tinha que rolar pelo menos um peitinho. Mas e se o cinema nacional tivesse continuado no caminho das pornochanchadas? Como seria nosso cenário hoje em dia? A que nível teria chegado? Como seria a imagem dos atores e atrizes que hoje são respeitados no mercado? Posso assegurar que seria algo assim:

Publicado originalmente em maio de 2002.

Nos Tempos do Cinema Raimunda

Quem já está na casa dos 30 anos se lembra muito bem de como era o cinema nacional nas décadas de 70 e 80. Era um festival de sacanagem. A filosofia de nossos cineastas era a de que para o filme ter público, tinha que rolar pelo menos um peitinho. Muitos nem se preocupavam com uma trama complexa e tratavam apenas de mostrar atores pelados e orgias. Quando as produções iam para as madrugadas da televisão, era uma festa para as platéias juvenis da época em que não havia acesso a essa grande revista pornô virtual que é a Internet. Mas os tempos mudaram, os cineastas brasileiros começara a se levar a sério e se empolgar com essa história de Oscar, Cannes, Berlin, Veneza, Toronto, Havana, Gramado, Brasília e qualquer outro das dezenas de prêmios que são distribuídos por aí, de modo que tudo que é produção acaba levando pelo menos um trofeuzinho em alguma categoria qualquer. Mas e se o cinema nacional tivesse continuado no caminho das pornochanchadas? Como seria nosso cenário hoje em dia? A que nível teria chegado? Como seria a imagem dos atores e atrizes que hoje são respeitados no mercado? Posso assegurar que seria algo assim:

O Quatrilho (1994, Fábio Barreto) - Numa conservadora cidade do Sul do Brasil, Patrícia Pillar e Bruno Campos vivem um casal que decide quebrar os tabus locais e praticar sexo fora da posição "papai e mamãe". Eles passam a copular de quatro, apelidando intimamente a modalidade como "quatrilho". A relação melhora ainda mais quatro anos depois, quando o casal descobre que é mais apropriado que a esposa, e não o marido, fique de quadro. Todas as cópias do filme foram retiradas do mercado depois que Patrícia Pillar virou a namorada de Ciro Gomes, candidato à presidência da república.

Os Matadores (1997, Beto Brant) - O ótimo Beto Brant, famoso pela violência das cenas de sexo, deu vida a dois personagens que viriam a se tornar os ícones dos guerreiros da noite. Murilo Benício e Chico Diaz interpretam dois garanhões que caem matando todas as mulheres que encontram na fronteira entre Brasil e Paraguai, dando novo significado à expressão "ponte da amizade".

O Que É Isso, Companheiro? (1997, Bruno Barreto) - Pedro Cardoso e Fernando Gabeira interpretam dois amigos que vivem participando de orgias clandestinas num clube privê chamado Dita Dura. Até que um dia, um dos camaradas sente uma coisa meio esquisita pelo amigo e, durante uma suruba, tenta forçar caminho por o­nde não deve. É quando a vítima solta a frase que dá nome ao filme.

Ação Entre Amigos (1998, Beto Brant) - Com o sucesso de O Que é Isso, Companheiro?, Beto Brant investiu no filão proposto com o filme de Bruno Barreto. Durante a ditadura, amigos comunistas foragidos tentam aliviar a tensão se entregando a jogos eróticos em grupo. Anos mais tarde eles descobrem pistas que levam a crer que um deles foi o responsável por transmitir uma doença venérea aos demais. Eles querem descobrir o culpado e puni-lo.

Central do Brasil (1998, Walter Salles) - Aclamado pela crítica e pelo público, Central do Brasil mostra a competição entre as prostitutas da Central, da Quinta da Boa Vista, da Glória e da Vila Mimosa. Fernanda Montenegro interpreta a cafetina que orienta as meninas da Central a fazerem de tudo para provarem que são mais eficientes que as adversárias. O filme revelou o jovem Vinícius de Oliveira, no polêmico papel do garoto que é seduzido por uma modelo que mais tarde se tornaria apresentadora de programas infantis.

Uma Aventura do Zico (1998, Antônio Carlos de Fontoura) - O Galinho de Quintino mostra sua irreverência ao brincar com sua imagem de bom moço. Aqui o jogador de futebol aparece numa divertida trama em que é clonado. Mas algo dá errado e sua cópia fica só com seus defeitos morais. A grande sacada do filme é escalar Romário para viver a cópia antiética de Zico. A cena final é um clássico da pornochanchada, com Zico e Romário fazendo as pazes no vestiário do Maracanã e encarando um grupo de Marias-Chuteira, que inclui Suzanna Werner, Milene, Jussara Mendes e, numa participação especial, Denise, mulher de Bebeto.

Um Copo de Cólica (1999, Aluízio Abranches) - Filme bizarro que foi proibido em alguns estados do país. Júlia Lemmertz e Alexandre Borges, casados na vida real, se sentem livres para desempenhar cenas escatológicas. A mais famosa é a que dá o título à produção, na qual a personagem principal colhe o produto de sua menstruação num copo e joga no rosto do parceiro.

Bicha Para Sete Cabeças (2000, Laís Bodanzky) - Rodrigo Santoro é um jovem que enfrenta dúvidas quanto a sua sexualidade. Ele acha que está enlouquecendo, se interna num hospício e acaba sendo hospedado num quarto com sete pacientes com histórico de abuso sexual. Logo na primeira noite, o delicado rapaz descobre que seus estranhos desejos não eram nenhum bicho de sete cabeças.

Eu Tu Eles (2000, Andrucha Waddington) - Regina Casé mostra seu talento na modalidade gangbang ao protagonizar picantes cenas com Lima Duarte, Stênio Garcia e Luiz Carlos Vasconcelos. Regina ganhou elogios por saber passar seus sentimentos com pouquíssimas palavras, apenas usando expressões faciais. Pudera. A atriz ficava o tempo todo com a boca ocupada.

Duas Vezes com Helena (2001, Mauro Farias) - Fracasso de público, mas bem recebido pela crítica. Fábio Assunção vive um jovem aluno que aceita a oferta de seu professor pervertido e vai para a cama com a mulher dele. Mas o mestre fica furioso quando o garotão dá duas sem tirar de dentro, fazendo com que sua esposa não queira mais saber do velho marido.

Na Lavoura Carca (2001, Luiz Fernando Carvalho) _ A primeira pornochanchada-cabeça brasileira. Muito sexo verbal e pouca ação na história de um filho de imigrantes turcos que se apaixona pela irmã e possui a moça na lavoura da família. Obra elogiada pelas belas tomadas. Tomadas da atriz principal, para ser mais claro.

Bellini: A Ex Finge (2001, Roberto Santucci Filho) - Adaptado dos contos eróticos de Tony Belloto, o filme mostra o drama de Bellini, um jogador de futebol que desconfia que não era capaz de dar orgasmos à ex-mulher, que fingia ficar satisfeita na cama para não humilhá-lo. Ele contrata um detetive para investigar a suspeita. O problema é que a verdade está para ser revelada em meio à Copa do Mundo, quando Bellini, capitão da Seleção, precisa se concentrar para vencer o mundial e erguer a taça.

Xuxa e os Doentes (2001, Paulo Sérgio de Almeida e Rogério Gomes) - Depois de Xuxa Requebra, no qual vivia uma insaciável dançarina de axé-music, a atriz mais rodada da pornochanchada nacional vai ainda mais baixo em seu currículo. Desta vez, Xuxa parte para o cinema realista e faz a festa de um hospital, indo para a cama com pacientes que estavam realmente internados no estabelecimento. Xuxa ganhou uma medalha do sindicato das prostitutas por fazer sexo com soropositivos usando apenas dois preservativos.

Copacabana (2001, Carla Camurati) - Produção sobre as meninas da Prado Júnior e do Calçadão da Avenida Atlântica, baseada em histórias reais. Houve muita frustração porque a diretora decidiu passar para o lado de trás das câmeras privando o público de suas lendárias performances como atriz.

A Partilha (2001, Daniel Filho) - Depois da morte da mãe, quatro irmãs se reencontram para a leitura do testamento. Elas só não esperavam que a senhora usasse os préstimos de um garoto de programas cujo nome profissional é Falo Belo. Como o rapaz já tinha recebido um adiantamento para um serviço de dois anos, as filhas acabam herdando o garotão e têm que fazer a partilha dele.

Abriu Despedaçado (2001, Walter Salles) - Rodrigo Santoro, um especialista em papéis gays, volta a brilhar em mais uma superprodução nacional. O ator interpreta Tonho, um jovem nordestino em meio a uma briga de famílias homossexuais. Ele é do clã dos Jacinto Pinto. Os inimigos são os Leite Aquino Rego. A cada ano um integrante de uma das famílias vai até o território vizinho para tentar provar que os adversários não agüentam serem penetrados sem lubrificantes. Tonho tenta provar seu valor ao enfrentar dois membros da família inimiga. O resultado é sugerido no título.

Avassaladoras (2002, Mara Mourão) - Sucesso de público que superou Dona Flor e Seus Dois Maridos. A desinibida Giovanna Antonelli interpreta Jáarde, a líder de um harém de mulheres árabes que se entregam aos caprichos de todos os homens que lhe procuram. O filme ficou famoso por uma cena de sexo entre Giovana e o modelo Reynaldo Gianecchini, na qual Jáarde fantasia ser a vassala de um senhor feudal.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

as 13/01/03, 22:29

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