Categoria: Odisseu Kapyn
A mulher brasileira sempre teve duas características muito fortes, em termos de corpo: bunda pronunciada e seios pequenos. Não precisa ser um bundão, do tipo mulataça. Pode ser de tamanho médio, mas que faça volume na calcinha, ao ser vista de perfil. Mas o que interessa é que fomos criados sabendo apreciar seios pequenos ou médios, os populares peitinhos. Só que nossa cultura está sendo violada, estuprada, mutilada através do silicone. Ou, para ser mais específico, das próteses de silicone nos seios.
Publicada originalmente em agostos de 2001.
Silicone x Mulher Brasileira
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Tem uma coisa de que nós brasileiros devemos nos orgulhar e que está correndo perigo de extinção. Não é o futebol (apesar da Seleção, continuamos sendo o país que gera os melhores jogadores), não é a musicalidade (apesar do pseudo-funk e do axé, continuamos com grandes músicos) e não são as belezas naturais (apesar da poluição, continuamos com belas paisagens). É a legítima mulher brasileira. Tá certo que somos um povinho meio feio. A maioria da população só serve mesmo para posar para fotos de Sebastião Salgado, o fotógrafo que adora a miséria. Mas vamos para a classe média, que é a que nós (gente que sabe ler e escrever com rapidez e que tem acesso a computadores) mais conhecemos. Nossas mulheres têm realmente um toque especial. E não é pelo jeito e pela fama de sacana, que faz todo gringo achar que vai chegar aqui e comer a irmã de todo mundo. A graça tem raízes na anatomia da mulher brasileira, que deve vir, sei lá, da tal mistura de raças de que os livros de primeiro grau tanto falam (para falar a verdade, nunca falei com um caboclo, embora conheça um cara que desconfio ser mameluco. Mas isso não vem ao caso).
A mulher brasileira sempre teve duas características muito fortes, em termos de corpo: bunda pronunciada e seios pequenos. Não precisa ser um bundão, do tipo mulataça. Pode ser de tamanho médio, mas que faça volume na calcinha, ao ser vista de perfil. E os seios pequenos não significam que sejam de tamanhos de ovos cozidos (muito menos ovos fritos). Podem ter o tamanho de uma pêra. São considerados pequenos se forem comparados a melões. O que interessa é que fomos criados sabendo apreciar seios pequenos ou médios, os populares peitinhos. É claro que um ou outro indivíduo, talvez criado com muitas Penthouses ou outras revistas americanas, tenha uma predileção por peitão. Tudo bem. Gosto não se discute. Mas cultura, sim. Cultura se discute e muito. E nossa cultura está sendo violada, estuprada, mutilada através do silicone. Ou, para ser mais específico, das próteses de silicone nos seios.
No início, o silicone era usado pelos travecos. Nunca vou esquecer uma traumatizante reportagem de Goulart de Andrade no Plantão da Madrugada, na falecida TV Manchete, com travestis aplicando silicone no peitoral. A gente ali querendo ver aqueles benditos shows de strip-tease que o desgraçado deixava pro finalzinho do programa e de repente entram aquelas figuras horrendas aplicando silicone no peito. Mal sabíamos nós que um dia veríamos nossas vizinhas e primas apelando para a mesma prática, embora com métodos mais seguros. Começou como uma espécie de remédio para vítimas de câncer de mama ou praquela menina que, por um problema genético qualquer, puxou o pai e ficou sem seios. Tudo bem, a gente entende. Vai lá apelar para um par de próteses. Mas logo a coisa virou moda. Já vi casos de peitinhos na medida serem sufocados por mililitros de silicone. Só porque agora está todo mundo aumentando suas circunferências. Pra que isso, meu Deus? Não me venham os beatos me criticar por colocar Deus no meio de um assunto tão carnal. Tenho certeza que ele também deve estar louco de ver algumas de suas belas criações adulteradas por enxertos.
Vejam a Sheila do Tchan (a melhor delas, ou seja, a morena). Tinha um corpo perfeito, com seios que combinavam em cheio com o ganha-pão, ou melhor, com os glúteos. Tava ali um perfeito espécime de mulher brasileira. Mas algum empresário deve ter cochichado no ouvido da moça alguma besteira e lá foi ela para a faca. É claro que ali tem negócio envolvido. Todo mundo já viu a Sheila pelada. O que fazer para vender mais revistas (além de colocá-la ao lado de uma nova parceira do grupo)? Dar um novo corpo para ela! Aí foi todo mundo ver os novos peitos da Sheila. E por aí vai. Mas a razão mais forte é mesmo o tamanho. Alguém inventou que quanto mais peito melhor. Talvez isso tenha vindo com a maldita Feiticeira. Maldita, sim. Tem muita mulher desconhecida na praia que nunca se preocupou com exercícios nem fez um polichinelo e põe a Feiticeira no chinelo, com todo aquele corpo forjado em cirurgias e lipoaspirações. Toda hora a mídia resolve que é a vez de alguém aparecer. Aí um monte de gente sem personalidade vai atrás e tenta ficar parecida com a pessoa, seja usando o mesmo corte de cabelo ou a mesma roupa. O problema é que quando decidiram que a Feiticeira (O quê? Ah, agora ela quer ser conhecida como Joana Prado? Vai ficar querendo) era a bola da vez, um monte de modelos e mulheres sem auto-estima quis imitá-la. E não foi usando um véu ridículo para esconder que a cara é igual à de qualquer mulher de beleza mediana. Foi enchendo também a peitarra de uma substância artificial. Tenho até dúvidas sobre que textura e gosto esses peitos têm. Alguém aí já fez um test-drive com um desses?
A questão é que a moda periga virar tendência. Vera Fischer também foi atrás, mas deve ter sido mais para segurar o peito do que para aumentá-lo. E desconfio que a Luma de Oliveira, que embora maravilhosa já está perdendo a juventude, tenha tido os mesmos motivos. E isso vai incentivando um monte de peitinhos lindos virarem apenas suporte para moldes de silicone. E as técnicas vão ficando cada vez mais avançadas. Já foi testado um revolucionário sutiã que vai aplicando silicone aos poucos nos seios, sendo absorvido pela pele. Não é brincadeira, não. Isso já existe e logo vai ser vendido na farmácia da esquina. Ou na butique, já que seios agora são um acessório de moda. Aí que os últimos peitinhos vão morrer mesmo. Isso os ecologistas não vêem. Ficam se preocupando com a sexualidade de pandas broxas e não mexem um dedo para impedir a extinção dos peitinhos. E toda uma cultura vai se perdendo. Nossas mulheres estão se curvando diante de um padrão de beleza que não é o nosso. E nem é coisa de querer parecer com mulheres do primeiro-mundo. As mulheres da França, por exemplo, também têm seios de tamanhos semelhantes ao padrão brasileiro. E batem um bolão, aliás. Se bobear, depois de tirarem da gente o posto de melhor seleção de futebol, os franceses vão nos ganhar em beleza feminina. Isso porque nossas mulheres estão ficando como as dos Estados Unidos, uma sociedade que gosta tanto de seios grandes que os chama de tetas nos filmes pornôs. É assim que nossas mulheres estão ficando. Como as americanas. O próximo passo é fazer cirurgias para tirar a bunda.
Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com
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