Categoria: Odisseu Kapyn
Nunca tive um bichinho de pelúcia. Nunca vi graça nenhuma neles. Também nunca entendi o fascínio que as mulheres têm por esse brinquedo. Mas o brinquedo pode levar nós, homens, a ganhar outro tipo de bichinho de pelúcia mais interessante e vivo, se é que vocês me entendem. Mas não tem mulher no mundo que me convença a comprar um certo tipo de bichinho de pelúcia: miniaturas de animais que não têm pêlo em sua versão real.
Publicado originalmente em junho de 2001.
Bichos de Pelúcia

Nunca tive um bichinho de pelúcia. Nunca vi graça nenhuma neles. Também nunca entendi o fascínio que as mulheres têm por esse brinquedo. Mas minha rejeição a ele não me levou ao ponto de me recusar a compactuar com essa indústria. Quer dizer, se uma mulher em quem eu estivesse interessado chegasse para mim e falasse que queria ganhar um CD de funk ou um livro do Paulo Coelho, eu pensaria: "Opa, amigo pênis. Lamento, mas não vai dar para te satisfazer. Não vou comprar lixo só para você aí em baixo se dar bem. Pode ser que um dia você tenha essa garota, mas vou avisando que não vou me esforçar para isso acontecer''. Já se ela falasse que queria um cachorrinho de pelúcia, tudo bem. Vou comprar um negócio que não vai ter utilidade nenhuma, mas pode valer a pena. Sim, porque tirando o fato que eles servem para ajudar a pegar mulher, os bichinhos de pelúcai são realmente inúteis para quem não é criança. Quando eu comprava Falcon, Playmobil ou Comandos em Ação, eu usava os brinquedos à beça. Inventa mil histórias com os bonequinhos. O mesmo devia acontecer com as meninas que compravam Barbie. Mas vai me dizer que uma mulher com 18 anos na cara, e na bunda, fica brincando com o bichinho de pelúcia? Você consegue imaginar uma mulher desligando a TV ou desmarcando uma saída para ir brincar com o bichinho de pelúcia? A única vez que vi uma mulher brincar com um deles foi num filme da Cicciolina. Mas a coisa era bem diferente, já que o bichinho era aparelhado com um enorme vibrador entre as perninhas. Uma coisa muito singela.
O. K. Não vou pedir para ninguém botar a mão na consciência e parar de comprar de presente um negócio que fica depois jogado em cima da cama ou esquecido dentro de um armário. Pois o brinquedo pode levar nós, homens, a ganhar outro tipo de bichinho de pelúcia mais interessante e vivo, se é que vocês me entendem. Mas não tem mulher no mundo (nem Comê-la Pitanga, digo, Camila Pitanga) que me convença a comprar um certo tipo de bichinho de pelúcia: miniaturas de animais que não têm pêlo em sua versão real. Isso eu não suporto, não compreendo e não vou tolerar mais. Por que diabos alguém faz uma orca de pelúcia? Porra, orcas não têm pêlos! Tartaruga de pelúcia. Caralho, tartaruga não tem pêlo! Não faz sentido! Eu acho que as mulheres vêem um tigrinho de pelúcia e pensam (na verdade, deve ser o inconsciente pensando): "tigres têm um pêlo lindo, mas são animais ferozes e perigosos. Mas esse aí pode ser meu. Posso dominá-lo e alisar seu pêlo na hora que eu quiser. Ele não poderá fazer nada. Nada. Nada! Há, há, há...". A teoria deve valer para ursos, leões e outros animais que são bolados com a raça humana e não hesitam em nos destroçar se dermos mole perto deles. Com um cachorrinho de pelúcia, as mulheres devem pensar assim: "Ai que bonitinho, dá vontade de abraçar... Parece um cãozinho de verdade, com a vantagem que não vai me dar trabalho para cuidar. Sem xixi, sem fedor, sem cocô... Amor, compra pra mim aquele cachorrinho? Custa só R$ 45". A teoria vale para gatinhos, coelhinhos, cavalinhos, porquinhos, vaquinhas e todos os outros animais que se deixam usar pelo pessoal munido de polegar opressor.
Mas o que passa pela cabeça de alguém que quer uma tartaruga de pelúcia? Ela vai fazer carinho no brinquedo? Por quê? Ela gostaria de fazer carinho numa tartaruga de verdade? Que tipo de gente tem vontade de fazer carinho numa tartaruga, um bicho todo encouraçado que não entende o que você fala, não acompanha a gente pela casa e ainda por cima come cocô com o maior prazer. Uma vez vi num quintal um cágado comendo um cocô enorme enquanto um cachorro latia para ele num misto de terror e reprovação. Ficou claro para mim nesse dia que as tartarugas (cágado, jabuti, é tudo a mesma coisa) estão escadarias abaixo na escala evolutiva, pois levam esporro de cachorro). Mas mesmo se tartaruga não comesse merda, o que é atraente nela? O que te dá vontade de fazer carinho? Nada. Então por que comprar uma tartaruga de pelúcia? Mas a insignificância dos jabutis nem importa tanto. A questão fundamental é que tartarugas, golfinhos e orcas de pelúcia são uma fraude. São uma falsidade ideológica. São aberrações entre os brinquedos. E é uma anomalia de caráter querer ter um deles.
E por falar em anomalia, já que estamos tratando de bichinhos de pelúcia, por que não analisar rapidamente o mais conhecido deles? Estou falando de Blau Blau, o ursinho que tinha que aturar o Sylvinho, do grupo Abysintho, dizendo que queria pegar uma menina mas não tinha coragem. Lembram disso? "Meu ursinho Blau Blau de brinquedo/diz pra ela esse nosso segredo/ela vai me fazer pirar/ai de mim, ai!/ai Blau Blau/ Blau Blau, ela não me quer...". Muita gente boa dançou e cantou isso até crescer e ver como era ridículo. Aí virou piada. Uma vez alguém me contou que estava na mesa tomando chopp com uma galera, que incluía amigos e desconhecidos, e o assunto era "coisas ridículas do passado". Depois de muito Bozo, Fofão, etc, alguém lembrou do Blau Blau. Foi quando um dos integrantes da mesa se levantou puto dizendo que o tal Sylvinho era irmão dele. Pois é. Acho que o irmão do Sylvinho achava que o Blau Blau era uma coisa séria. E tem mais gente que deve achar isso, como algumas assessorias de imprensa. Vejam aí embaixo um texto divulgado para os jornais cariocas:
ROCK IN RIO CAFÉ
Nesta terça-feira, dia 29 de maio, o Rock in Rio Café apresenta o show de
Sylvinho Blau Blau e Os Pelúcias. Resgatando os velhos amigos do grupo
Absyntho (Samuka e Sérgio Diamante), Sylvinho volta as suas
origens. A nova banda marca a boa fase que vem se concretizando graças ao
reconhecimento da mídia no Rock in Rio III. Os Pelúcias, além dos antigos
integrantes da Absyntho, traz na sua formação Cláudio
Paradise (guitarra), Joe Lima (baixo) e Fábio Brasil (bateria). Depois da
apresentação a noite continua ao som do DJ Ricardo Araújo.
Como é que é? Reconhecimento da mídia no Rock in Rio 3? Pelo que lembro, os jornais não fizeram muito mais que mostrar uma foto de Sylvinho sendo agarrado por trás por um homem fantasiado de urso (se não me engano, o tal homem na verdade era o maluco do Serguei, aquele cara pan-sexual que vive dizendo que namorou a Janis Joplin). Não lembro de exaltações ao som do rapaz. Se houve alguma agitação do público em torno da apresentação de Sylvinho num dos palcos alternativos do Rock in Rio foi apenas uma celebração do ridículo. Uma confissão bem-humorada da nossa ingenuidade no passado. Tenho a impressão que Sylvinho sabe disso. Não foi à toa que ele mudou o nome artístico para Sylvinho Blau Blau e batizou sua banda de apoio de Os Pelúcias. Depois de tentar carreira solo como cantor que faz a platéia femina de programinhas pobres dar gritinhos, Sylvinho deve ter caído na real e visto que nasceu para pagar mico mesmo. Não há problemas em pagar mico se você sabe que está pagando mico. É engraçado. Louvável, até. Outra coisa completamente diferente é fazer como o Supla, que está tentando aproveitar a recente volta à mídia _ graças a ridicularização de seu trabalho por Marcos Mión no programa Piores Clipes do Mundo, da MTV_ para tentar provar que tem talento. Isso sim é pagar mico. Agora, será que o Sylvinho Blau Blau acha mesmo que teve o reconhecimento da mídia, como diz a tal assessoria de imprensa? Se pensa, lamento pelo enorme mico. Tá vendo o que um bicho de pelúcia pode fazer com sua vida?
Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com
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