Categoria: Sherlock Holmes da Silva
O Espírito de Natal, todo mundo sabe, só chega na madrugada do dia 24 para o dia 25 quando as famílias se reúnem para comemorar a vinda do filho de Deus para a Terra.
É tempo de paz, fraternidade e festa.
Todavia, é só o comércio começar a anunciar que já é natal (mesmo que em novembro) com suas decorações ofertas natalinas para o Espírito de Porco do Natal começar a agir.
Publicado originalmente em dezembro de 2001.
O Espírito de Porco do Natal

O Espírito de Natal, todo mundo sabe, só chega na madrugada do dia 24 para o dia 25 quando as famílias se reúnem para comemorar a vinda do filho de Deus para a Terra.
É tempo de paz, fraternidade e festa.
Todavia, é só o comércio começar a anunciar que já é natal (mesmo que em novembro) com suas decorações ofertas natalinas para o Espírito de Porco do Natal começar a agir.
Pouco, ou nada comentado, mas sentido por alguns, o Espírito de Porco do Natal se vale do Espírito do Natal que vai chegando para abusar das pobres almas fracas das pessoas de bem.
Ele é uma entidade do mal formada basicamente pela junção da, velha conhecida por nós brasileiros, Lei de Gerson que diz "é preciso levar vantagem em tudo", com a necessidade de sobrevivência nesse pais de bunda nosso.
E Espírito de Porco Natalino tem dois modos de manifestação estanques: o ativo, ou seja, a motivação para pedir porque é Natal; e o passivo, a motivação para doar porque é Natal.
Embora ataque fundamentalmente as classes mais desfavorecidas de nossa sociedade, o Espírito de Porco Natalino ativo não segue um padrão rígido de manifestação.
Nos eventos de amigos ocultos (ou amigo secreto) quando sorteamos nomes, presenteamos e somos presenteados ocultamente, o espírito de porco encontra sua morada.
É quando o indivíduo possuído resolve tirar o máximo de lucro com o mínimo de gasto; pede uma Ferrari e presenteia um frasco de desodorante. Em sua mente uma frase retumba livremente: "Se dei bem!".
Um caso inédito ocorreu recentemente no círculo de relações do cocadaboa.
Participando de um desses eventos, um colaborador nosso recebeu como pedido de presente de seu sorteado o limite de preço, que era de 25 reais, em dinheiro. Ou seja o cara iria dar um presente que poderia custar menos que 25, mas não queria perder nenhum centavo do limite.
Nosso colaborador, sabendo se tratar de uma obsessão incontrolável, resolveu salvar a alma contaminada, trocando em moedas de 1 centavo os 25 reais do presente (o que em volume equivalem a um copo de 700 ml mais um de 300). Com o peso em suas mãos a alma ficou livre no mesmo momento.
Nas ruas de nossas capitais o Espírito de Porco age solto: é mãe solteira, viúva desvalida, desempregado com família para sustentar; tudo pedindo, pedindo, pedindo... onde essa gente se esconde o resto do ano? Não sei, mas o Espírito de Porco faz com que eles achem que "temos que ajudar" e muitos de nós a ajudarmos porque "temos que ajudar".
Não ajudamos o ano todo; mas é Natal, temos que ajudar....
Faça dois testes, um como pagante e outro como pedinte. Se aproxime de uma pessoa com jeito meio carente e encare a criatura de frente; vá sem medo e reserve um tostãozinho, porque é certo, vai rolar um: "aí, tio, pode me ajudar?".
Depois como pedinte. Procure alguém com um jeito mais ou menos estável, não se preocupe com o sexo, o espírito não tem preconceitos, e não se importando com a sua aparência ou vestimenta abastada, peça solenemente: "me dá um real aê.". Na hora, sem avaliar para quem está sendo dado, a pessoa salta quentinho e sem impostos o real pedido.
Campanhas, listinhas e promoções são realizadas para pegar o indivíduo que sofre do mal no modo passivo; na desculpa de arrecadar comidas e cestas natalinas para os menos favorecidos. O que essa gente vai comer o resto do ano? Não sei, mas no Natal eles têm que encher o bucho.
Todavia, de todos os campos de nossa sociedade, é no setor de prestação de serviços que o Espírito de Porco arregimenta mais indivíduos para ao sua horda do mal.
Do meio do nada descobrimos no início de dezembro por quantas pessoas somos queridos e, tão ingratos que somos, não reparamos.
É o amigo taxista que já que cobra tão baratinho o ano inteiro e que pode colocar o taxímetro para cobrar um pouquinho a mais porque é Natal.
É o amigo carteiro que manda recomendações e felicidades para minha família em seu belo cartão e pede uma colaboração para a ceia... Eu não sei o seu endereço para retribuir seu cartão, vou ter que retribuir a gentileza em dinheiro.
É o amigo entregador de gás que me fala que é "o amigo certo das horas incertas". Engraçado, acho que cada vez quem entrega é um "amigo" diferente... não sei o nome deste amigo, mas imagina se ele me falta numa hora incerta; melhor retribuir a amizade em dinheiro.
É o amigo porteiro que não fala comigo desde que me mudei para cá há cinco anos, mas que já imprimiu sua listinha que tem o nome de cada condômino com um valor de donativo ao lado. Melhor eu ajudar porque pode ser que a partir de agora ele comece a me insultar por ser unha de fome.
Eu vinha chegando em casa com a idéia desse texto na cabeça quando fui interpelado por um homem alto e robusto de olhar malandro e sorridente. Era um gari.
- Boa noite, PADRINHO. Vai colaborar com a nossa caixinha?
Boquiaberto pela coincidência soltei na lata:
- Não.
- É, mas devia. Depois o lixo não sai da sua porta e o senhor não entende...
Acredita nisso?
É como diria o Betinho, "quem tem fome tem pressa".
Sherlock Holmes da Silva
sherlock@cocadaboa.com
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