Adaílton Persegonha
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02/02/05

Minhas Férias Adoráveis

Um dos meus maiores prazeres é viajar. Botar o pé na estrada, partir sem ru-mo para lugares desconhecidos e inóspitos à procura de aventuras e de um possível encontro comigo mesmo e de algo que me faça parar de escrever viadices como as que estão neste parágrafo.

Como todos os anos, minhas férias começam em janeiro, mas como estou a maior parte do tempo agora trabalhando em casa, resolvi adiantar uns serviços e me mandar mais cedo.

A coisa mais difícil é escolher um destino. Já conheço praticamente o Brasil de cabo a rabo (sendo que rabo eu vejo mais no Carnaval), então decidi passear no exterior. Sem pensar, peguei um atlas, fechei os olhos e lasquei o dedo no mapa. Deu Tailândia.

Sempre ouvi falar dos campeonatos de surf que se disputam naquele lado do mundo. Só que jamais poderia imaginar que todos as pessoas das ilhotas do país fossem obrigadas a disputar este tipo de competição. Foi o que eu vi assim que cheguei, no dia 26 de dezembro. Turistas e moradores da ilha de Pukhet tentavam se agarrar a qualquer coisa que boiasse para disputar as acirradas competições! É preciso muita coragem para enfrentar ondas de mais de trinta metros de altura. Hoje em dia, respeito a destreza dos surfistas que conseguiam surfar até em pessoas que passavam desavisadamente pelo local.

Ao chegar ao hotel, uma surpresa: não havia mais hotel! Fiquei indignado! Onde é que já se viu remover um hotel assim, sem mais nem menos? Comecei a brigar com um dos recepcionistas que falava um idioma pra lá de enrolado. Eu berrava dizendo que ia processar o hotel, o governo, o país. Foi aí que eu não vi mais nada. Ou melhor, vi sim: uma onda enorme me arrastando ilha a dentro. Quase me afoguei e redobrei minha disposição de processar o governo da Tailândia por inscrever aleatoriamente os turistas em campeonatos que eles não querem disputar!

Fiquei desacordado durante muito tempo. Quando acordei, me deparei com um monte de gente com pano na cabeça. "Que porra de lugar é esse?", pensei. Todo mundo ali parecia muçulmano!!! Foi então que eu descobri: havia sido mandado pro Iraque por engano!!! Ou de sacanagem mesmo, tanto faz... Como descobri que estava no Iraque sem saber falar uma palavra em árabe não interessa num texto fictício...

Através de gestos, tentava desesperadamente me fazer entender, mas os iraquianos só entendem gestos em inglês, feitos pelos soldados americanos e que correspondem, mais ou menos, aos gestos de "sit", "dead" e outros feitos para cachorros. Então comecei a falar a linguagem universal do Brasil: o sacanês!

"Sou do Brasil! Romário!!! Samba!!! Mulher pelada!"

Fui preso por desrespeitar preceitos islâmicos. Como eles entenderam que eu estava falando em coisas profanas sem saber uma palavra em português é coisa que não interessa num texto fictício.

Por fim, fui liberado. Andava eu solitário pelas ruas de Bagdá. Ou o que sobrou delas. De repente, um carro pára perto de mim. Um sujeito barrigudinho, barbudo e de óculos pergunta pra mim:

"Aí, quer uma carona?"

As doces palavras no meu idioma pátrio fizeram com que meus olhos reluzissem, tremelicassem espantosamente e vou parando por aqui porque não quero dar chance às veadagens neste parágrafo também!

Inesperadamente, recusei o convite:

"Aí, meu chapa. Não quero carona, não. Te conheço?"

O sujeito ficou meio puto e se mandou.

Consegui voltar ao Brasil num tonel de cachaça iraquiana de uso exclusivo da presidência da República. Como havia cachaça num país islâmico, onde bebidas alcoólicas são proibidas, é coisa que não posso explicar num texto fictício.

Ao chegar em casa, cansado, liguei a televisão. E vi que o tal gordinho barbudo tinha desaparecido no mesmo dia em que me ofereceu carona! Ainda bem que eu não peguei a carona com ele! Desaparecido... Tá bom! Tá na cara que esse sujeito disse pra esposa que ia comprar cigarro numa esquina de Bagdá e nunca mais vai voltar. Boba é ela! Todo mundo sabe que, depois da invasão americana, Bagdá virou uma espécie de Brasília da Mesopotâmia: não tem mais esquina...

Adaílton Persegonha é assim mesmo.
persegonha@cocadaboa.com

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