MrManson
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31/10/04

Vocabulário Registrado

Provavelmente o grande sonho de toda a marca é “entrar para o dicionário”. Essa é a maior expressão da sua força de penetração no mercado, algo com valor imensurável. Não chega a ser um monopólio econômico, mas sem dúvida é um “monopólio ideológico”, fazendo a concorrência amargar a definição do produto com o nome do líder. Imagine alguém tentando vender glucose de milho sem colocar nas entrelinhas que aquilo não passa de um “Karo® genérico”.

Ninguém fala que vai comprar uma palha de aço, tirar uma fotocópia, comer um macarrão instantâneo ou limpar as cracas do ouvido com uma haste de algodão flexível. Nosso democrático idioma já incorporou o Bombril®, a Xerox®, o Miojo®, o Cotonete® e muitos outros... E isso acaba indo ainda mais adiante. Das quatro marcas que acabei de citar, 3 são apelidos de conhecidos meus.

Não é à toa que a corrida dos “publicitários de sapato caramelo” para conseguir tal status para o seu cliente é voraz. E em alguns casos chega a beirar o patético, como na atual campanha da Credicard®. São comerciais com pessoas despojadas e abastadas conjugando o verbo “credicard”. “Eu credicard minha viagem para Aruba. Eu credicard meu vestido. Eu credicard meu jantar”. E tudo se conclui com um slogan maneirinho, do tipo “quando você credicard a sua vida fica maneira”.

Até aí tudo bem, nenhuma lei proíbe os caras de tentarem. E, no final das contas, um idiota ou outro falando “nã nã nãnã” na mesa de bar eles sempre conseguem arrebanhar.
O irônico é que provavelmente o dono da marca não iria gostar nem um pouco caso por ventura o verbo “credicard” venha a ser conjugado pelas massas, a ponto de um dia entrar no Aurélio com uma definição maneira, do tipo:

credicard v. t. Adquirir bens de maneira impulsiva e irresponsável, conseqüentemente entrando em um ciclo vicioso de endividamento a taxas de juros exorbitantes.

Não ia demorar um dia para os advogados processarem o pai dos burros, exigindo uma correção do verbete. Ou seja, as marcas querem se infiltrar na cultura popular, mas sempre se resguardando. Quando é bombril (palha de aço), tudo fica bem e a exigência do ® some. Mas se alguém se aventurar a usar a definição:

bombril sm 1. Prolongamento filiforme que cresce na região pubiana 2. Pentelho (linguagem chula).

Os direitos do ® apareceriam rapidinho em uma notificação judicial.

A Coca-Cola pode estampar a marca dela em todos os cantos do espaço público. Acho que é impossível uma pessoa urbana normal não ser exposto a ela pelo menos 5 vezes ao dia. Mas se esta mesma pessoa absorve esse símbolo como algo que faz parte do cotidiano e o satiriza, como o Cocadaboa fazia, logo a meretriz, presente em todas as esquinas para arrumar um trocado, se transforma em moça de família e clama pela preservação de sua identidade.

Já está na hora de organizarmos o grande Dicioná®io dos termos corporativos, publicando verbetes como o do verbo transitivo credicard e o do substantivo masculino bombril. Vamos enriquecer a nossa lista com coloaborações para o email mrmanson@cocadaboa.com. Ao longo dos próximos dias eu vou publicando os mais legais no Cocadaboa Diário, ou quem sabe até edito uma seção fixa no site.

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

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