Eu me impressiono com a tosqueira da maioria dos candidatos a vereador aqui de Belo Horizonte. Eles formam uma fauna altamente diversificada, são líderes de associações de bairro, radialistas, ex-jogadores de futebol, profesores universitários, donos de botecos, deficientes físicos, cabeleireiros, pastores, militares, jovens, velhos. O programa eleitoral de vereador tem tantos personagens estereotipados que poderia até ser confndido com A Praça É Nossa, só que é muito mais engraçado.
Mas não é o cargo de vereador que atrai as aberrações. A tosqueira é simplesmente estatística. Vejamos as regras do jogo: 41 vereadores serão eleitos em BH (um número absurdamente grande, acho eu). De acordo com a legislação eleitoral, cada coligação pode ter um número de candidatos até duas vezes superior ao número de vagas a preencher, e partidos isolados podem ter até 1 vez e meia o número de vagas a preencher. Disputam as eleições para vereador de BH oito coligações e onze partidos isolados. Fazendo as contas:
(8 x 2 x 41) + (11 x 1,5 x 41) = 656 + 682 = 1338
Ou seja, Belo Horizonte pode ter até 1338 candidatos a vereador. Felizmente, "apenas" 1064 candidatos disputam essa eleição. No estado de Minas Gerais, são 54.811 candidatos para um total de 13.281.087 eleitores (dados do TRE-MG). Nada menos do que um em cada 242 eleitores mineiros é candidato a um emprego de 4 anos na Câmara Municipal de sua cidade. Estatisticamente, é impossível não ter um monte de toscos no meio dessa multidão. Em Belo Horizonte, há candidatos que parecem ter saído do teclado de algum poeta dadaísta, como Zói Bad Boy, o Retorno (40666-PSB), Cleverson do Escolar (31150-PHS), Elias "O Índio" (26151-PAN) ou mesmo o Cláudio, filho da Tia Dulce (40777-PSB), que profana as lembranças de toda a geração que foi criada nos anos 80 assistindo ao Clubinho, programa infantil da Tia Dulce na TV Alterosa.
E a quem interessa a existência de tantos candidtos assim? Mesmo se um partido tiver TODOS os votos, não elege todos os seus candidatos. É óbvio que a imensa maioria dos candidatos é apenas isca para engordar a votação de seu partido, é gente que vai obter algumas centenas de votos em seus bairros ou em suas classes profissionais mas não tem a menor chance de se eleger. Quem acaba sendo eleito são os mesmos nomes de sempre, os caciques dos partidos e seus protegidos, aqueles que têm dinheiro - próprio ou do partido - para fazer campanhas eleitorais de grande alcance. Mas como 99% dos eleitores ignora que nas eleições proporcionais o voto em um candidato de determinado partido é mais importante para a divisão das vagas entre os partidos/coligações do que para o próprio candidato, todos os partidos de todas as vertentes políticas têm suas portas abertas para o Seu Zé da Padaria que pode levar para a legenda seiscentos e vinte e oito eleitores, entre clientes, familiares, amigos e aquele pessoal que toca um pagode lá na porta da padaria todo sábado.
E é assim que a política funciona no Brasil, com muitas falsas esperanças e nenhuma vontade de esclarecer a população. As gráficas e as empresas de brindes não têm nada a perder com isso e faturam bastante com essa abundância de candidatos. E eu posso me divertir vendo na TV o slogan do candidato Edson Coelho Netto - Tomate (44010-PRP): "Tomate eleito, povo satisfeito!"; ou a proposta do candidato Lucílio Gomes (65678-PCdoB): "Pelo direito de dançar, cantar e amar."
O Cocadaboa
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