Esta é mais uma coluna do Cocadaboa. E trata de TV. Fiz questão que o tio Manson me deixasse escrevê-la quando ele disse que iria criar um espaço pra falar de TV. Isso porque sou fanático por televisão e devo tudo na vida a esse aparelhinho de fazer malucos, como já bem classificou alguém importante cujo nome estou com preguiça de procurar no Google. Veio da TV não só as coisas que sei, mas todo o dinheiro que já ganhei na vida. Fosse trabalhando dentro dela, escrevendo coisas que iam aparecer na tela, ou, principalmente, trabalhando fora dela, escrevendo sobre coisas que iriam ou foram ao ar. Sou daqueles que acham um aparelho de TV ou uma assinatura de TV a cabo tão ou mais importante quanto uma geladeira ou a comida que se compra para abastecê-la. Acham que estou exagerando? Onde mais você pode aprender sobre assuntos tão importantes como, por exemplo, o comportamento feminino? Não estou falando apenas para os homens, que precisam conhecer sobre aqueles seres tão diferentes que nos deixam malucos ou babacas. Estou falando também das próprias mulheres, que podem pela telinha saber o que se espera que elas sejam, vistam, ajam ou falem.
Poderíamos nos enveredar aqui pela série Sex and the City, que mostrou aos marmanjos menos escolados que mulheres também gostam de sacanagem e que orientou muitas mocinhas a serem mais liberais, ainda que todo esse liberalismo muitas vezes ficasse apenas para as conversinhas com as amigas. Isso tudo é roteiro, e pode ser escrito até por homens, sejam machos ou gays, ou metrossexuais (temos que levar em consideração esse grupo enquanto ele está na moda). As telespectadoras não têm como única opção as quatro personagens de Sex and the City, para ficarem dizendo “Ah, eu sou a Carrie! Sou inteligente e bonitinha, mas não sou compreendida pelos homens”, “Eu estou muito mais para Charlotte, pois acredito no amor” ou “Eu queria ser a Samantha, mas tenho muitas estrias e não gosto de sexo anal”. As telespectadoras, principalmente as mais velhas, podem tentar se espelhar em outras quatro mulheres, de carne e osso: as mostradas no Saia Justa, no GNT. Não sei se é coincidência ou estratégia de TV, mas sempre que querem mostrar como certo grupo pode ter facetas diferentes escalam quatro indivíduos. O quatro parece ser a melhor forma na TV para se mostrar variedade de comportamento. Isso desde Os Trapalhões, passando por Seinfeld e outras boas séries, chegando a Sex and the City e finalmente ao Saia Justa. Mesmo sendo um lugar onde as falas das mulheres não são guiadas por um roteiro, o Saia justa conta com quatro “personagens”. No início, eram Mônica Waldvogel, Marisa Orth, Rita Lee e Fernanda Young. A mulher séria, contida e inteligente; a mulher engraçada e divertida; a mulher porra-louca; e a mulher moderna, cabeça e polemista, ainda que polemista de araque, daquelas que falam merda por falar, que dizem coisas chocantes só porque soltaram a primeira coisa que passou pela cabeça na hora de abrir a boca. Mas vamos parando por aqui, pois o texto não é para sacanear a Fernanda Young, algo que já está ficando cansativo.
O caso é que tínhamos ali quatro tipos de mulher. Como tudo se passa na vida real, já ficava mais difícil uma telespectadora se identificar totalmente com as “personagens” e fazer como em Sex and the City, dizendo “Ah, eu sou a Fernanda Young, pois falo o que penso!”. Mas eis que Rita Lee saiu da bocada (e que bocada é ganhar dinheiro pra deixar gravarem você conversando sobre qualquer coisa, como num botequim, onde você dá opiniões contundentes sobre assuntos dos quais você não tem a menor idéia e ainda concordam contigo, dependendo do número de garrafas na mesa) e precisou-se arrumar uma substituta. Em vez de fazer como o Manhattan Connection, que escalou Arnaldo Jabor e, posteriormente, Diogo Mainardi para o papel de Paulo Francis, o Saia Justa se desapegou dessa coisa de “apenas quatro facetas” e escalou pro programa um outro tipo de mulher: a cantora Marina Lima, adorada por muitas mulheres que gostam de mulheres. Assim, o Saia Justa fez algo bem significativo. Em vez de agir como em outras produções que apenas apontam a existência de mulheres com gosto diferente sem as integrarem, o programa diz que uma das facetas da fêmea atual é justamente essa. Tão normal quanto ser séria, engraçada ou falar merda é gostar de outras mulheres. Mais um passo no caminho pelo tapete felpudo que vemos se desenrolar a nossa frente, com cada vez mais mocinhas desistindo de viver com nossas escrotices de homem para tentar uma relação onde falta falo mas uma entende a TPM da outra.
É nossa televisão ensinando os novos caminhos para a mulherada. Tá achando pouco? Na mesma semana, um ícone feminino da TV, Marília Gabriela conversava em seu programa no GNT com o ginecologista Elsimar Coutinho, que garantia que, enquanto o homem gay já nasce homossexual, “qualquer mulher tem predisposição para viver com outra mulher”. É só questão de escolha, de acordo com o sujeito, que faz assim um belo convite para as fêmeas nos deixarem. Um dia vai faltar mulher. Mas não vamos ficar com raiva da televisão, rapazes. A TV gosta da gente. O problema é que gosta tanto que quer ser nossa única alternativa no futuro, nos oferecendo como consolo as mulheres do Sexy Time do Multishow ou, para quem não tem TV paga, as ajudantes de palco dos programas de variedades da TV aberta.
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