O politicamente correto é a arma da hipocrisia. Pregar uma “polidez utópica” encontrada somente em livros é tão insano quanto imitar os filmes americanos e fuzilar seus colegas de escola.
Nessa semana um crítico de arte que escreve para a AOL resolveu emitir sua opinião sobre o meu livro, até aí tudo bem, opinião é que nem cu, cada um tem o seu (e ele como “crítico de arte” deve saber muito bem o que fazer com o dele).
Mas a crítica não manteve seu foco na arte. Ao invés de se concentrar no livro, Antônio Gonçalves “Júnior” preferiu acusar a “ideologia por trás do Cocadaboa”. Segundo ele, sou um projeto de fascista sem civilidade, que só sabe seguir a sua “voracidade animal”.
Toninho, como era de se esperar, é uma pessoa sensível. Ele deseja ver o universo descrito pela literatura de seus ídolos reproduzido no mundo real. Ele sonha com um mundo utópico, sem os “vira-latas”, como eu. Ele sonha com um mundo onde haja apenas uma raça de pessoas superiores, como ele. E depois eu que sou um projeto de fascista...
Coitado, está isolado em seu mundo de fantasia. Ele vê perigo e decadência em tudo que o cerca. Uma verdadeira paranóia “intelecto-patológica”. Não há muita diferença entre Antônio e aquele rapaz que, vivendo em um mundo de fantasia, entrou em um cinema de São Paulo durante a exibição de Clube da Luta e metralhou a platéia.
Posso, segundo sua opinião, não escrever bem e produzir lixo literário e piadas sem graça, Sr. Antônio. Mas o filhote de Hitler aqui e você.
Na coluna dele há este link para um fórum onde, depois de conhecer os argumentos de ambos os lados, vocês podem se manifestar (mas por favor, com muita polidez para não chocar o pobre homem sensível). Seria exelente mostrar para ele que a "turma do cocadaboa", que ele tanto despreza, é uma turma de pessoas normais, tolerantes e que adoram pensar.
Lá eu postei uma réplica mais longa, que reproduzo abaixo. Mas leia apenas depois de ver o texto do Antônio, se não ela perde seu sentido.
Quando crescer, quero ser igual a você.
Parabéns, o discurso ficou muito bom. Seu português é irretocável, sua argumentação é perfeita, seu estilo é bem definido e suas bases teóricas e referências bibliográficas são inatingíveis para um inexperiente jovem de 25 anos como eu. Receber uma crítica tão bem elaborada como essa realmente me abalou.
Eu poderia até seguir meus instintos animalescos e pouco polidos e te mandar simplesmente tomar no rabo, ou mostrar que a Internet é a minha área e provocar uma bela confusão. Mas acho que isso, apesar de engraçado, reforçaria o seu falso argumento de que não sou uma pessoa extremamente democrática e tolerante.
Não conheço seu trabalho, mas em uma rápida passagem pelas suas colunas anteriores vi que definitivamente você não faz parte da “minha turma”, ou da “turma do Casseta”, ou da “turma dos flash mobs”, ou da “turma que assiste Ratinho”, ou da “turma que curte um filme americano”, ou da turma das “pessoas normais”. Você é uma exceção, uma jóia rara, e certamente para você isso é um elogio.
Você pode até criticar a pobreza do meu texto ou a falta de graça de minhas piadas, mas não pode insinuar que sou um “projeto de fascista, que debocha da inferioridade de negros, pobres e homossexuais”. Apesar de todos os defeitos da “minha turma”, nós tentamos conviver de igual para igual com todas as outras turmas, sacaneando-as sim, mas sem querer ditar padrões de pensamento ou comportamento a serem seguidos.
Lamento informar, mas quem ganha a vida criando falsas idéias de superioridade é você. Quem ganha a vida sendo um pequeno ditador fascista dizendo o que é bom ou ruim para a civilização é você. Esse é o seu papel de crítico, completamente diferente do meu papel de humorista. Estamos em lados opostos, não falamos a mesma língua.
Você pode impressionar muita gente citando Bergson, Schopenhauer ou qualquer outro autor desconhecido por 95% das pessoas que vão ler a sua coluna. Ninguém vai pensar “em que mundo esse cara vive?”, pois isso seria, para a “sua turma”, assinar um atestado de debilidade.
Enquanto o seu papel de “crítico intelectual” exige este embasamento teórico, o meu papel de humorista me dispensa das explicações chatas. Nada de Bergson ou Schopenhauer. Afinal, não há nada pior do que precisar explicar uma piada.
Você cita o “espírito judaico do Witz” como algo bem distante do Cocadaboa - Olha aí mais um exemplo de suas tentativas de entorpecer os seus leitores com “termos descolados”. - Para quem não sabe o que é isso, explico (me dei ao trabalho de descobrir): esse é o termo que deu origem a palavra “chiste”, que popularmente é mais conhecida como piada, gracejo ou trocadilho. Ou seja, o humor mais “bobinho”, ou “polido”, como você prefere em seu texto.
Realmente estamos distantes do “Witz”, mas mais uma vez a sua intolerância não faz você reconhecer as outras dúzias de estilos de humor como algo válido. Tudo que não faz parte do seu mundo cheio de “Bergsons e Schopenhauers saltitantes na relva” não presta, merece ser desprezado e precisa ser erradicado, pois trata-se de uma ameaça à civilização. À sua civilização.
Gosto de me incluir no saco dos satíricos. O mais agressivo, antigo e popular dos estilos de humor. A sátira não obedece padrões, está sempre se transformando com as situações. Mas há quem diga que:
(agora cito um livro, mas sem seu título ou nome do autor, para não soar pedante como você – só quero economizar tempo)
“Uma boa sátira se constitui não em apenas revelar enfoques negativos do inimigo, mas primeiramente são apresentados aspectos que podem merecer respeito por parte do espectador dessa trama comunicacional e em seguida, como argumento principal, prevalece a revelação da incoerência e inconsistência interior dos argumentos do oponente através da mostra de suas qualidades negativas.”
É claro que, para você, eu sempre vou parecer uma “aberração que ri sozinho”. Mas na verdade não estou rindo sozinho, estou rindo com a “minha turma” (que a sua intolerância impede de reconhecer essa massa como pessoas normais e inteligentes). E é claro que você não vai achar graça da piada, porque muitas vezes o alvo dela é justamente os alarmistas que gastam toda a sua erudição e tempo tentando opinar e julgar tudo que os cerca, sofrendo cada vez mais com a imagem de sua “nobre existência” indo embora. Vá procurar a sua turma, e fique bem entocado em seu bunker literário, porque longe dele a sua argumentação cheia de firulas perde o sentido.
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