É raro alguém admitir que acompanha a novela das oito, principalmente “jovens bonitos, bronzeados e formadores de opinião”. Não me lembro exatamente quem (Vocês acham que eu perco tempo lendo os textos desses outros manés que escrevem aqui?), se der mole foi até mais de um, mas com certeza algum outro autor do Cocadaboa já comentou sobre esse fenômeno.
As pessoas sabem o que está rolando na novela porque é a hora do jantar e a TV da cozinha fica sintonizada na Globo, ou porque entram na internet após o Jornal Nacional e esquecem a TV ligada, ou ainda porque precisam saber o que está na boca do povo para fazer piadas escrotas com imagens de photoshop... Enfim, não faltam desculpas para nego falar mal e fingir que ignora completamente o que uma manada de milhões de imbecis transforma em tema central de suas conversas no dia seguinte.
Eu admito abertamente que assisto em média uns três capítulos por semana. É claro que me choco com as imbecilidades, que acho o merchandising forçado patético e que me revolto com as incoerências do roteiro. Mas uma vez ciente do que está acontecendo na trama, fica impossível deixar de prestar atenção quando começa a rolar um barraco, quando alguém vai descobrir que não é filho de quem pensava ou, é claro, quando o grande assassino vai ser revelado. Afinal, duas gostosas lavando a roupa suja, bastardos descobrindo o seu passado e crimes sendo elucidados não são coisas que vemos na vida real. A não ser nos antigos almoços de família na casa da minha avó, mas mesmo assim elas nunca eram tão engraçadas.
O que me deixa puto é nego ficar enaltecendo o tal do Gilberto Braga. “O cara é um gênio!”
Gênio? Por que gênio? Só porque o desfecho a novela dele está dando 60 pontos no ibope? Só porque “quem matou Lineu” é a dúvida do momento? Criar “assuntos do momento” não é nenhuma tarefa absurda. As banhas da Preta Gil já foram assunto do momento! Porra! Até publicitários conseguem criar “expeguimentas” e “nãnãnãnãs” do momento!
Parabéns para ele. Escrever uma novela é um trabalho absurdamente difícil que eu nunca teria a competência para realizar. Gilberto Braga escreve infinitamente melhor do que eu, em qualquer categoria, desde fábulas até relatórios técnicos. Ele merece cada centavo de seu gordo salário, cada metro quadrado de seu luxuoso apartamento, cada pé de seu grandioso iate e cada centímetro da rola dos rapazes que se revezam comendo o seu rabo, mas o título de “gênio da dramaturgia” já é demais.
As pessoas assistem porque simplesmente está na TV, e tudo que está na TV é digno de atenção. Pouco importa o que acontece entre o segundo e o penúltimo capítulo, até porque tenho a teoria de que as novelas devem terminar da mesma maneira que começaram, em uma espécie de “momento inercial bizarro”, onde o passado e o futuro não são relevantes.
O autor matou o personagem dele sem ter a menor idéia de quem seria o culpado. A morte do tal Lineu nem estava prevista na sinopse original da novela, foi apenas a reprodução de uma fórmula batida para ajudar nesses 60 pontos da reta final. Os telespectadores não estão esperando a elucidação de um mistério, mas sim uma desculpa esfarrapada. Adivinhar quem matou o cara é idiotice, porque não existe absolutamente nada para ser adivinhado. Isso não é ser genial.
Geniais são coisas como o roteiro do filme “Sexto Sentido”, que na última cena te mostra uma coisa que estava na sua cara o tempo todo e você não percebeu. Até “quem matou MrBurns” foi mais genial do que essa fórmula do sucesso de Gilberto Braga. E fico só nesses exemplos mais populares para não correr o risco de mencionar um roteiro ou livro que a maioria possa não conhecer.
E mesmo com a perfeita noção de estar sendo enganado, muita gente continua assistindo. Tudo isso porque somos extremamente carentes de finais, ainda que fajutos. Ler “FIM” é um grande alívio. Até porque, em uma viagem filosofal mais psicodélica (culpa da cerveja ao meu lado), a vida é uma continuidade cheia de episódios, mas sem nenhum final. Você vai morrer e a brincadeira vai continuar. Nenhum de nós vai saber do “verdadeiro final”, o “grande final”. Como essa merda toda vai acabar? Explosão nuclear? Queda de meteoro? Invasão alienígena?
Existe coisa mais inquietante do que essa? Imagine se o “grande roteirista do universo” for um merda igual ao Gilberto Braga, que no fim vai nos dar uma desculpa, e não uma explicação.
Agora sinta-se confortado, o texto acabou.
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