Aprendi que tradicionalmente a vida se divide nessas 4 etapas (ou idades): infância, adolescência, adulta e idosa. Mais recentemente, com as grandes corporações do mal interessadas em segmentar ainda mais o mercado e torná-lo mais lucrativo, inventaram a tal da pré-adolescência (pré-adolescentes nada mais são do que crianças que já são capazes de fazer criança – e com argumentos bem moldados para impor aos seus pais muitos desejos de consumo).
O interessante é que há uma etapa “intermediária” muito mais marcante do que a pré-adolescência, mas completamente negligenciada (talvez porque seus membros são muito menos interessantes para psicólogos sanguessugas que do que crianças que dariam qualquer coisa para ter o novo sapatinho da Sheila Carvalho): a pós-adoloescência.
Já estou com 25 anos, moro sozinho, me sustento, não encontro mais dificuldades e inseguranças para conseguir uma parceira legal para fazer sexo, a punheta virou apenas um hobby paras as terças e quintas e já tenho idéias formadas sobre as leis fundamentais que regem o universo (ideais sólidos, e não aqueles delírios malucos de militantes da UNE que acham que vão mudar o Brasil ou salvar o mico-leão-dourado).
Em teoria eu seria um adulto, mas algo me diz que estou muito longe disso. E, ao olhar para os lados e ver os meus amigos, vejo que pagar um plano de previdência privada, ter filhos e enfrentar um divórcio litigioso fazem parte de uma realidade mais distante do que a época onde tudo que importava era conseguir mais dinheiro para comprar fichas de fliperama.
Apesar de cada vez mais comum e extensa, a pós-adolescência ainda é um limbo, uma etapa cruel e pouco compreendida pela sociedade. Enquanto pré-adolescentes têm todas as suas mínimas necessidades satisfeitas ou explicadas por alguém mais velho, o pós-adolescente não pode contar com ninguém. Não gozamos mais da humildade necessária para admitir que não sabemos fazer algo “adulto” e pedir uma explicação. Por isso estamos condenados a não viver as glórias do universo adulto em sua plenitude.
Os exemplos vão das coisas mais bobas até as mais sérias, mas como dizem “o conforto reside nos detalhes”.
Eu comecei a trabalhar com 18 anos (tá bom, bolsa do CNPQ não é trabalho, mas enfim, é uma renda). Tive que fazer uma conta em banco, etc e tal. Era a época ideal para eu aprender sobre esses detalhes bancários sem medo de ser taxado como imbecil, mas acabei dando mole e a oportunidade passou. Agora, 7 anos depois, decidi que nunca vou ter um talão de cheques. O motivo? Não tenho a menor idéia pra que cruzar um cheque, quando cruzar, pra qual lado devem ser as linhas... Eu sei preencher um cheque, mas nunca tive que fazer isso (graças ao cartão de débito automático). Assim sendo, os detalhes bobos do preenchimento fogem completamente da minha base de conhecimentos. Não custaria nada perguntar para aquelas meninas com colete amarelo que ficam ajudando os idosos na fila do caixa eletrônico, mas certamente seria tratado como um idiota.
Pré-adolescentes têm tudo. São milhares de programas de TV, revistas e etc explicando coisas banais que qualquer menino de 5 anos está careca de saber. Convenhamos: entender o funcionamento da camisinha é bem mais fácil de intuir do que o protocolo necessário para fazer um check-in / check out em um hotel. Pois é, como pós-adolescente já atingi o nível de poder viajar e ficar em hotéis de respeito e não em pousadas xexelentas ou campings toscos. Mas algum “Jairo Bauer” já escreveu alguma linha sobre como funciona esses detalhes de “meia-diária”, checagem de frigobar, gorjetas e o caralho?
Porra, o pré-adolescente não pode pedir uma ajuda para a parceira na hora de emborrachar a salsicha, mas eu, um homem formado (e barbado), tenho que ficar posando de inexperiente para a moça no balcão do hotel?
E os psicólogos sempre aconselham: “converse com seus pais”, perca a vergonha... Porra, para o pós-adolescentes conversar com os pais nessa altura do campeonato é muito mais vexatório do que perguntar sobre detalhes do ato sexual aos 13 anos de idade. Já imagino até a cena:
- Pai, queria ter “aquela conversa” contigo.
- Como assim, você já tem 25 anos, porra! Eu te pago Playboys, filmes em locadora e internet desde os 13! Já era para você ter aprendido!
- Não... Nem é isso... Bem, é meio constrangedor...
- Pode falar filho.
- Sabe aquele lance cilíndrico de metal, que vem junto do faqueiro e serve para amolar as facas de churrasco?
- A chaira?
- É... essa parada aí. Como eu uso essa porra?
- Usar? Como assim?
- É, como eu tenho que passar a faca ali pra ela ficar afiada? Eu sempre imito o que vejo neguinho fazendo, esfregando de um lado pro outro, mas sei lá, sempre tive a sensação de estar errando em algo. Fico mó tempão e a faca continua cega. Deve ter alguma técnica especial...
- Porra! Tu mora sozinho há quase 3 anos, se mete quase que semanalmente nessas churrascadas para encher os cornos de cerveja e ainda não aprendeu a afiar uma faca de churrasco, seu desgraçado? E como você faz?
- Fico com a faca merda mesmo, durante meses, tentando inutilmente afiar ali na paradinha cilíndrica de metal até desistir e comprar uma nova.
- Putaquemepariu... E eu ainda te emprestei dinheiro pra fazer uma churrasqueira de alvenaria no quintal...
Pronto. Nunca mais meu pai me olharia com os mesmos olhos. Aquele filho que parecia estar indo tão bem é na verdade um inútil.
Minha geração foi tão bombardeada com informações sobre sexo e carreira que as coisas banais da vida adulta foram deixados de lado. São detalhes bobos, mas fazem toda a diferença quando nos olhamos no espelho e tentamos enxergar um "adulto". E ninguém vai nos ensinar nada, até porque somos vaidosos e não vamos perguntar. Vou casar, ter filhos, me aposentar, comprar uma cova no Jardim da Saudade e morrer, mas não vou poder pagar por ela com um cheque e certamente sofrerei constrangimentos na hora de fazer o check-in no cemitério.
E quem lucra com isso? Só a Tramontina.
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