Não existe profissão mais escrota do que ser formador de opinião. Tá certo que você ganha uma boa graninha por mês só para ficar escrevendo em sua coluna o que você acha e o que você não acha a respeito das coisas, mas porra, em determinado momento você acaba sendo forçado a ter uma opinião sobre tudo. Como deixar seus leitores carentes de seu comentário sobre o caso Luma de Oliveira? Será que a sociedade vai sobreviver sem saber a sua avaliação da troca de cerveja do Zeca Pagodinho?
Tudo começa com um email elogiando suas posturas. Depois de alguns meses, com o ego sendo bem massageado, um pensamento de “eu faço a diferença” (coincidentemente o slogan de um famoso jornal carioca) sobe à sua cabeça e você começa a dar pitaco sobre tudo. De Osama até Jhonny Knoxville, de violência urbana até casamento gay. A patologia chega a progredir tanto que em determinado momento você começa a fazer relações absurdas em seus argumentos e vira uma espécie de Arnaldo Jabor. Mistura em uma só coluna casamento gay com Osama e conclui que é tudo culpa dos pit-boys da “Geração Jackass”.
O pior é que quando um formador de opinião senta para escrever a sua coluna, ele realmente se preocupa com aquilo. Ele lê toneladas de jornais para saber quais são os assuntos que estão carentes de uma opinião. Fica imaginando o que o povão vai pensar e tenta arquitetar um argumento que o contrarie, mas ao mesmo tempo o faça achar interessante. Tenta antecipar o que os outros milhares de formadores de opinião vão escrever e constrói o seu texto da maneira mais original possível para não cair no senso comum. Só depois disso ele senta para escrever. E quando tudo parece estar acabado, ainda revisa seu texto milhares de vezes, o lapidando com o mais puro vernáculo. Enfim, um trabalho do cão.
Tudo isso para receber um salário e 100 emails comentando o seu comentário. E se um dia ele recebe 50 emails no lugar dos 100 habituais, sua coluna foi um fracasso e a angústia se abate sobre o pobre coitado por semanas. Isso dura até a analfabeta do Big Brother ser eliminada e ele formular uma teoria genial sobre o nojo que o público sente de si mesmo, pois aquela ali que acaba de ser massacrada pela edição do Boninho é apenas uma cópia deles mesmos. E conclui com uma frase de efeito: “A tela da TV é um espelho e a massa de ignorantes não sabe que, votando na frentista, se auto-eliminou”.
Mas a grande novidade é que muita gente lê, mas quase ninguém se importa com o que dizem os formadores de opinião. As únicas pessoas que perdem tempo lendo e acompanhando suas séries de complexos raciocínios são os outros formadores de opinião, que precisam fazer isso diariamente para mapearem onde está o senso comum e descobrirem o que vão poder escrever em suas próprias colunas.
E a prova disso está na própria natureza de sua função. Se estes milhões de leitores precisam consumir um pacote com opiniões formadas para saber como se posicionar nas discussões do dia-a-dia, eles também precisam consumir um outro pacote para responder as réplicas de seu interlocutor de mesa de bar. Caso contrário, a conversa morre ali e eles vão discutir assuntos mais interessantes como a mulher gostosa que está na mesa ao lado. São horas e horas de trabalho volátil que, lamento desiludir, não fazem a menor diferença.
Eu passei quase 20 anos dentro de uma sala de aula recebendo a mesma ladainha diária e ainda não sei direito qual é a desse lance de orações subordinadas e orações coordenadas. Não é muita pretensão do Zuenir, do Dapieve e do Xexéo acharem que vão me explicar as nuances do mundo e formar a minha opinião com um texto de 3.374 caracteres que aborda o grande “highlight descartável” do dia?
Pois bem. “O exército de formadores de opinião são como uma fila de cupins andando em círculo, onde um come a merda que o da frente fez, a digere e a caga para o de trás comer”.
E os leitores? Bem, "o povão é na verdade quem impõe a ordem e forma as opiniões dos formadores de opinião, dizendo se naquela semana o círculo vai girar no sentido horário ou anti-horário".
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