Já começaram a falar dos 10 anos da morte de Ayrton Senna. Presenciaremos uma enxurrada de reportagens especiais, depoimentos de amigos, colegas e fãs do piloto e entrevistas com especialistas em Fórmula 1 e, de quebra, antropólogos, psicólogos, sociólogos e qualquer outro ólogo chamado para explicar o fenômeno Senna. Vamos ouvir o Tema da Vitória, aquela musiquinha que a Globo usava nas vitórias de Senna, até a hora em que formos dormir. E tudo isso será muito justo. A morte de Ayrton Senna foi realmente importante e deve ser lembrada com todo o entusiasmo. Não porque o piloto fosse um exemplo de brasileiro vitorioso, o maior piloto da história ou um homem digno e ético e tudo mais que se costuma falar do sujeito para exaltá-lo. Antes de tudo, a morte de Senna foi importante por constituir um dos episódios que ajudaram na consolidação do humor negro e politicamente incorreto entre a geração que hoje tem seus 25 ou 35 anos, justamente a faixa do público que aprendeu a ser gente numa era (felizmente) regida pelo cinismo, pelo ceticismo e pela ironia, tão bem retratada por séries como Seinfeld. Nos dias que se seguiram ao acidente fatal com Ayrton Senna do Brasil, enquanto a maior parte do mundo chorava pela morte de um ídolo, outros poucos tiveram o sangue frio de bolar piadinhas com a tragédia.
Lembro bem que, no dia do acidente, fui ao longínquo bairro de Realengo, aqui no Rio, para o churrascão de aniversário do meu tio Sidney (pronuncia-se “Sidinêi”, pois somos de família suburbana, que também transformou o “Mírian” de outra tia em “Miriân”). Cheguei perto dele e falei: “Puxa, tio. Que chato o Ayrton Senna ter morrido no seu aniversário, né?”. Sua resposta foi veloz e sábia: “Antes ele do que eu!”. Achei corajoso o desafio à tristeza nacional. Gostei. Achei que meu tio seria o único a não entrar no oba-oba emocional incentivado pela mídia, que se alimentou por dias daquele evento transformado em espetáculo. Mas eu estava enganado. Dezenas de trocadilhos com a palavra “cabeça” surgiram com velocidade para brincar com a morte de Senna, que teve o crânio atravessado por uma barra desprendida do carro. Quase todos eram fracos, mas tinham lá seus méritos. Ria-se não da inteligência das piadas, mas por se sentir acima da obrigação de chorar por Senna, algo que estava quase virando esporte nacional naqueles dias. Tinha gente derramando mais lágrimas por um desconhecido do que derramaria pela morte da própria mãe. Para combater isso surgia um grande número de piadinhas politicamente incorretas. Até tentei fazer a minha gracinha, dizendo que depois de Senna o automobilismo viraria esporte de massa... encefálica. Fiquei esperando o Casseta & Planeta daquela semana para ver mais piadas. Não vieram. No fim do programa ainda rolou algo como um “Valeu, Ayrton!” escrito no vídeo. Acabei tendo que me contentar em rir da minha própria ingenuidade por achar que um programa da Globo iria brincar com algo tão “importante”, ou ainda, com um homem que era praticamente “artista da casa”, já que a Fórmula 1 é atração da emissora.
A internet ainda não era popular e ninguém recebia os gracejos por email, como acontece hoje. No entanto, as piadas se disseminaram que foi uma beleza. Fizeram até reportagens sobre o assunto. Estudiosos (sempre há estudiosos doidos para dar algum uso ao que estudam) explicaram que o humor negro era uma forma de o povo lidar com a tragédia e que rir era uma espécie de válvula de escape para a tristeza, ou algo assim. Não lembro direito, pois não levei a sério a explicação. Achava que era melhor os repórteres terem entrevistado meu tio. Nascia ali pra mim e para muita gente o gosto pelo politicamente incorreto, pelo pouco caso com as convenções de comportamento e pelo desprezo às campanhas de orientação emocional promovidas pela mídia. Depois daquilo, minha geração foi se aprimorando com outras tragédias, como a morte dos Mamonas Assassinas, da atriz Daniela Perez, do jogador de futebol Dener, de passageiros da TAM e mais recentemente com Roberto Marinho. Hoje é tranqüilo brincar com a morte de celebridades/semideuses. Mas há alguns anos era diferente. Tanto que, pelo que lembro, não se brincou com a morte de Tancredo Neves. Daí a importância da morte do piloto. Ayrton Senna, sempre o primeiro.
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