MrManson
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05/12/03

Tiro ao Público Alvo

Uma das primeiras coisas que a galerinha que perde tempo cursando propaganda em deve aprender é a tal “identificação do público alvo”. Parece meio óbvio, pois anunciar Viagra no programa da Xuxa, caviar no intervalo do Ratinho ou fazer merchandising de livros em um capítulo de Malhação seria uma estratégia de marketing adotada somente por algum prefeito retardado que planeja construir um “ovniporto” ou por editores mongolóides de sites politicamente incorretos. Um factóide legal, mas um fracasso mercadológico.

A identificação do público alvo é tão previsível que chega a ficar chata. Todo mundo que, como eu, tem um estilo de vida “vampiresco” está acostumado com os programas religiosos da madrugada que prometem salvar a sua vida, tirando você, pobre desgraçado, do fundo do poço. Quem assiste TV de madrugada não trabalha, logo está na miséria. Quem assiste TV de madrugada tem insônia, logo convive com problemas. Quem assiste TV de madrugada não tem mulher para comer, logo está carente. Resumindo: Tem público alvo melhor para Jesus (o salvador que fará você prosperar e ter um gordo salário para contribuir mensalmente com o dízimo) do que gente que assiste TV de madrugada?

Você nunca vai ver um produto do Polishop ser anunciado em um outdoor, pois o público alvo dos milhões de quinquilharias que são ofertadas em “infomerciais” a cada semana nunca sai de casa. Vida ao ar livre, caminhadas e exercício? Para que se cansar se você é um inútil que pode comprar dezenas de aparelhos de abdominais diferentes para eliminar essa sua pança de quem não levanta do sofá?
Esse é o cúmulo do sedentarismo: o cara gasta 500 Reais em um “AB-Shaper-Tronic-Master” para fazer abdominais em casa, sendo que, com a mesma quantia, ele poderia pagar um ano de academia e fazer exercícios muito mais completos (e ainda ver a mulherada suando a bucetinha na ergométrica). Mas não... Para ir na academia é necessário sair de casa e atravessar a rua. Muito trabalhoso...

E, além dos aparelhos de exercícios miraculosos, qual a grande especialidade do Polishop? COMIDA! Logo depois do aparelho que dá choques para você ficar sarado sem suar, oferecem uma incrível máquina de fazer sorvete, um grill para você comer bifes sangrentos de 10 centímetros de largura ou formas de silicone cancerígeno para você fazer bolos e pudins deliciosos. Esses caras do Polishop são bons mesmo. Ao mesmo tempo que vendem a promessa de um corpo melhor, empanzinam os paquidermes ali presos no sofá com muitos waffles, milk-shakes e frangos fritos com apenas uma gota de óleo. Um círculo vicioso.
Eles conhecem tão bem o seu público alvo que nem se importam em fazer um “infomercial” de qualidade. Fazem um troço mulambento, com roteiro repetitivo e porcamente dublado. Nenhuma jaca de sofá vai trocar de canal mesmo... É muito cansativo achar outra coisa para assistir.

Mas confesso que nem todas as ações publicitárias que miram em um público alvo são tão simplórias assim. Uma me surpreendeu.

Como toda criança normal (ai, que saudades da época que eu era normal...), também li gibis durante a minha infância. Um pouco de tudo, desde Turma da Mônica até X-Men. Os enredos e estilos eram amplamente variados, mas pelo menos uma coisa estas revistinhas tinham em comum: um anúncio do Instituto Universal Brasileiro na página central.
Nunca entendi qual o interesse do IUB em anunciar seus cursos por correspondência em uma revistinha infantil. Para que um moleque de 8 anos vai querer fazer um curso por correspondência de “Detetive Particular”? Você consegue imaginar a cena: “Papai, compra esse curso de silk-screen para mim”? Tem desgosto maior para um pai do que ver um filho abrindo mão da ambição de ser alguém na vida tão cedo? Existe gente que em sã consciência encorajaria seu filho a se profissionalizar por correspondência em coisas tão promissoras quanto “Secretariado Moderno” ou “Técnico de Refrigeração e Ar Condicionado”?

Porra? Onde está a pegadinha? Por que a merda do Instituto Universal Brasileiro compra espaços em revistas infantis desde que me entendo por gente (põe aí uns 20 anos)? Passei grande parte de minha vida com essa pulga atrás da orelha, sem conseguir enxergar qual era o “pulo do gato” dos marketeiros, mas finalmente descobri.
Na próxima vez que você estiver em um ônibus ou metrô, preste atenção nos jovens entre 18 e 30 anos com vestimentas decadentes e com um semblante de não ter qualquer perspectiva de vida. É garantido que eles vão estar lendo alguma revista em quadrinhos. Eu conheço centenas de caras assim, que caíram num limbo entre a infância e a vida adulta (pra falar a verdade, a maioria dos meus colegas é assim). Esse sim é o público alvo do IUB! Há mais de uma década eles estão ali assimilando aquela marca e, no beco sem saída que suas vidas se transformaram, virar um “Técnico de Eletrônica Digital” não é mais uma idéia tão ruim assim. E como em suas infâncias, eles também vão precisar pedir o dinheiro para seus pais, mas dessa vez os velhos vão pagar com gosto, e quiçá com alguma esperança no coração.

Deus salve o marketing direcionado, pois ele salva almas.

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

Lembrete para mim mesmo: enviar um email para o site do Instituto Universal Brasileiro oferecendo espaço publicitário no Cocadaboa. Tenho a ligeira impressão de que tenho muitos alvos por aqui.

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