Sherlock Holmes da Silva
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25/09/03

Basta de Bosta (parte II)

A Indústria do NADA que move o mundo

... Como pode haver gente que diz que nossa vida é boa se temos que alternar momentos de realidade com momentos de entorpecimento para não ficarmos loucos???

Já ouviu aquele papo de que a Religião é o ópio do povo? E aquele outro de que o futebol é que é o ópio do povo? Então, esqueça os dois, pois ambos estão incompletos.
Descobri um dos conceitos mais escrotos do mundo e ao mesmo tempo o verdadeiro ópio do povo. Você vai se surpreender porque esse parece um conceito simples e amigável, mas no entanto é o troço mais entorpecedor que existe. É algo que motiva o ser humano convencional a imaginar, fazer e pagar para ver coisas excepcionalmente bizarras... Tá sentado? Lá vai: INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO.
Claro que você não concorda comigo. Deve estar pensando que morte, gonorréia, comida macrobiótica, chorume, parnasianismo, sexo tântrico e Gilberto Barros são coisas muito piores que “entretenimento”; e de fato elas são piores. Mas pelo menos cumprem um papel tangível no mundo (que para alguns casos é entreter).
O que quero dizer é que entretenimento é em si uma coisa extremamente escrota, simplesmente por não ser absolutamente nada e por enfeitiçar as criaturas com seu nada avassalador, enquanto nos enfiam goela abaixo um elenco de conceitos, produtos e necessidades dispensáveis e descartáveis.

Imagino que, ainda na idade da pedra, quando um hominídeo com uma certa veia artística viu um macaco tocando punheta com cara de idiota e imitou para o resto da tribo a cena - e por um instante todos se divertiram e esqueceram a vida patética em busca comida que viviam - a semente dessa indústria era semeada. Todavia, foi quando um outro hominídeo disse para o hominídeo punheteiro que se eles fechassem a caverna e o punheteiro fizesse durante o dia todo o número do macaco, os outros da tribo dariam um pouco de caça para cada vez que assistissem a “punhetagem”, de forma que os dois teriam sempre comida e nunca mais teriam que se arriscar caçando que os alicerces da indústria do entretenimento estavam consolidados.
Ou seja, quando um safado espertalhão junta um imbecil que faz qualquer palhaçada tão torpe e ridícula que ninguém mais gostaria de fazer, com um grupo de idiotas que não seria capaz de fazer essa tal coisa, mas seria capaz de pagar para ver alguém “especial” fazer, a indústria do entretenimento prospera.
Desde a idade da pedra, praticamente nada mudou.
Atualmente a palhaçada pode ser: o inenarrável (entenda como quiser) Seu Creyson; a Preta Gil posar nua e dizer que é baranga mesmo no Faustão (tendo ao fundo o homem que se congelou por 70 minutos que vai pro Guinness Book); o filho do Tiririca e seu novo “Lacraia”; a caçada a Saddam Hussein; o PCC do Gugú...

O homem convencional trabalha num mesmo troço o dia todo, todos os dias. Não tem garantia nenhuma de sua vida, mas tem certeza de sua morte. Pensa, logo existe; mas não sabe quem é, onde está, nem para onde vai... Há um momento em que ele precisa esquecer da sua vida medíocre – caso contrário estará propenso a uma depressão, aí não vai trabalhar e isso não é bom para o mundo – e é aí que ele precisa se entreter.
Esse homem convencional é você.
Então você paga por uma TV, um rádio, um livro, revista, filme, jornal... Essa indústria está em toda parte; em tudo o que você faz, vê, ouve, come... Talvez seja a coisa mais abrangente que exista. Por não ser efetivamente nada e estar em todos os lugares. É o que te mantém vivo.
Claro que o entretenimento é feito de acordo com o público alvo. E esse é o lado mais cruel dessa indústria, pois a Banheira do Gugú funciona tão bem quanto o Balé Bolchoi, se o objetivo é entreter. E Zorra Total é tão bom quanto Seinfeld. E a Revista do Baú é tão eficiente quanto Super Interessante. E eu sou tão interessante quanto Leão Lobo (depois de escrever esse texto vou me matar por essa razão).
E ela não atinge só a pobres, ou ricos, ou ignorantes, ou eruditos... atinge a todos.
Mas a razão da indústria do entretenimento existir é a mesma; tem que haver algo pelo qual a gente pague direta ou indiretamente e que sustente o “palhaço punheteiro”, enriqueça o empresário do palhaço e te diga o que fazer com a caça ou o dinheiro que te resta. Aí, durante as “punhetas” te mostram direta ou indiretamente um monte de coisas que você precisa ter para ser mais feliz, para ter mais tempo para ver mais punhetas, para comer enquanto assiste às punhetas, para vestir e mostrar pros outros que você gosta das punhetas... E você mesmo pode ter produzido uma dessas coisas!
Depois de um tempo todo mundo da tribo já assistiu as punhetas e até já imitam o punheteiro. Aí, o cara da idéia de cobrar pela entrada, junto a um outro que vende a melhor pedra lascada da região (força é coisa do passado, desosse sua caça sem sofrimento!), resolvem colocar no lugar do punheteiro um outro hominídeo, que promete enfiar o dedo no rabo e cheirar... algo repulsivo, mas que a tribo toda vai adorar ver. Alguns sentirão pena, outros nojo, outros graça... e vão acreditar piamente que estão pagando para ter essas sensações - mas não, estão pagando é para fazer parte da roda do mundo e continuar tendo um espaço dentro dele... não tendo depressão; para continuar a produção de coisas; continuar conquistando caça ou dinheiro; continuar sabendo o que fazer com o que restar da caça ou dinheiro; saber o que imitar para conquistar mais fêmeas e ser mais popular...

Uma ressalva, a indústria é diferente da atração... A atração normalmente é um desgraçado necessitando sobreviver ou aparecer (como o hominídeo punheteiro ou nós, do Cocadaboa). Já a indústria é um espaço, uma necessidade, uma mão invisível que cria a demanda e a sustenta. É a nossa necessidade de entorpecimento, junto com a “necessidade de se criar a necessidade de posse e consumo”, somada a necessidade de um empresário gastar o mínimo com a produção e ganhar o máximo com o lucro... ufa!
Quando a indústria do entrenimento vai acabar? – Acho que nunca.
Quando a humanidade vai sair dessa escravidão? – Acho que nunca.
O que eu vou fazer para me livrar dela? – Me matar, pois descobri que sou tão interessante quanto o Leão Lobo.
Para mim chega, Basta de Bosta!

Sherlock Holmes da Silva
sherlock@cocadaboa.com

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