Adaílton Persegonha
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17/09/03

É tudo 1 Real!

O maior problema de você morar num Estado em que a governadora é populista é que pobre começa a achar que é gente. Ainda mais se essa governadora, no afã de varrer as mazelas para baixo do tapete, resolve apelar para a única quantia que um pobre pode dispor: 1 real. Então o pobre maltrapilho pára e pensa:

- Um real? Acho que dá!

Como nem tudo é perfeito, é claro que o pobre não pode abdicar de sua função social que é ter as coisas (quase) de graça e ainda reclamar, mas isso é outra história.

Pensando nisso, o que faz nossa genial e maquiavélica governante? Começa a espalhar pelo estado restaurantes, hotéis, salões de beleza e farmácias onde as coisas só custam 1 real.

1 real. Uma notinha verde. Sem graça. Não vale nada. Quer dizer, vale sim... Vale 3 milhões de votos...

Como cidadão preocupado com a justiça social e no intuito de ajudar no sério* trabalho desenvolvido pela Governadora, vou dar algumas sugestões de coisas que o Estado poderia providenciar para que o seu sofrido povo possa ostentar um extenso sorriso banguela de felicidade cobrando tão-somente 1 real!

CACHAÇA A 1 REAL – Pobre que é pobre gosta mesmo é da pinga, da marvada, daquela-que-matou-o-guarda. Quantas e quantas vezes não somos parados na rua pelos mengas, com seus bafos de anteontem, pedindo qualquer trocado para que possam matar a sua fome tomando um rabo de galo, do puro? A Governadora poderia providenciar imediatamente os Pés-Sujos Populares, onde a garrafa de cachaça seria vendida a 1 realzinho só. Com a vantagem de que pobre não tem carro e nem pode provocar acidentes! Seguindo o embalo, ela poderia criar o Transplante de Fígado a 1 real até porque com a qualidade da cachaça que seria vendida (sem licitação, claro) o que não vai faltar é cirrose!

CRUZEIRO MARÍTIMO A 1 REAL – Já dizia o carnavalesco Joãozinho Trinta: pobre gosta de luxo. Então que tal oferecer aos desvalidos um cruzeiro marítimo? Quer coisa mais chique, mais glamourosa, mais clean que um cruzeiro? Mas é bom a pobralhada não ir se assanhando. Já que o preço é 1 real, o serviço não seria lá grandes coisas... O itinerário, por exemplo, não permitiria que a viagem passasse de Guarapari, o que pros durangos não seria nada mal: afinal, eles nunca iriam passar de Araruama mesmo... Os restaurantes não ofereceriam nada de especial. Pobre não curte cardápio afrescalhado, se comer caviar pode ter até uma ingrizia no estômago. Pobre adora ter ingrizia, seja lá o que isso signifique. No menu, constariam os pratos típicos dos sem-grana: aquele franguinho esperto, acompanhado de arroz e feijão. Tudo isso regado a muita farofa!

DICIONÁRIO A 1 REAL – Iniciativa de inestimável valor cultural e que pode pôr um fim numa das maiores desgraças de nosso tempo: o pobre que fala errado. Munidos deste poderoso instrumento de educação, poderemos ficar livres de vocábulos como “pobrema”, “bicicreta”, “tóchico” e “adevogado”. Crescem também as esperanças de extirparmos expressões que não prezam muito pelo Latim castiço, como vemos em “a gente vamos” e “pra mim comer (ou falar ou sair etc)”. Este dicionários também teria a miraculosa capacidade de acabar com doenças misteriosas como “grugunhanha” e “ziquizira”, mazelas que deveriam ser estudadas com mais atenção pela Ciência, porque só pobre é que tem.

TERMAS A 1 REAL – Pobre que é pobre gosta mesmo é de fuder. Principalmente com a sua paciência se for possível e sempre é. Então por que a Governadora não alivia a barra da rapaziada desprovida de tutu e não cria os sensacionais Puteiros a 1 real? É claro que este preço só inclui a buceta. Mas sabe como é pobre: vive tomando no cu e quando virem uma oportunidade dessas, vão querer meter num roxinho como forma de vingança. Só que “compreta” custa 2 real (pobre não fala no plural). Este preço vai arrancar protestos dos sem-dindim, mas será preciso resistir, Governadora! Não dê o braço a torcer: cu é mais caro e ponto final! Ah, é bom esclarecer que esta iniciativa dos Puteiros do Povo pode até dar com os burros n’água. É que deverá ser obrigatório o uso de camisinha e pobre não usa camisinha. Se usasse, não estavam por aí, cheios de filhos e pedindo pro Governo coisas a 1 real.


Eu ia encerrar pedindo pra Governadora criar também o Programa Imposto a 1 Real. Todas as taxas extorsivas do Rio custariam esta bagatela. Um preço justo aliás se você pensar nos serviços que o Estado presta. IPVA, Taxa de Incêndio, ICMS, tudo, tudo poderia ser pago com uma simples nota ensebada de 1 real. Mas esta idéia tem que ser descartada, por ser muito “classe média”, distante da realidade do país, já que todo mundo sabe que pobre não paga imposto... No máximo, pagam uns micos...

* Isso foi uma ironia.

Adaílton Persegonha
persegonha@cocadaboa.com
Http://www.leitedepato.com.br

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