A “verdade” mais contundente de ontem está embalando, hoje, o peixe na feira.
Se eu tivesse que contar uma longa história verdadeira, que influiria de alguma maneira na sua vida e na das pessoas que o cercam na órbita econômica, social e política, como você preferiria que eu o fizesse?
a) Contasse um pouquinho por dia, ao longo de vários anos, mudando de ponto de vista diariamente, relativizando bastante de maneira que ao final desses anos você tivesse um panorama real da coisa;
b) Esperasse o evento acabar pra te contar na íntegra e sem cortes como foi.
Se você ficou com a alternativa B, você pode não saber, mas você é um cara antenado e objetivo. Não gosta de perder tempo com bobajadas e impressões parciais das coisas. E é também econômico, porque nunca mais vai se sentir obrigado a assinar jornais, revistas e canais especiais de notícias, pois sabe que para se manter BEM informado basta ler um bom livro de História ou um clássico qualquer; que os eventos de verdadeira relevância, que mudaram o rumo das coisas vão estar lá gravados, é só ter um pouco de paciência.
Agora, se você ficou com a A, você é como a maioria da população mundial, e ainda confia em gente como você (com paixões mundanas, interesses particulares e salário para ganhar no fim do mês) para te contar em pedacinhos ridículos e parciais a “realidade” no momento em que a realidade está acontecendo.
Esse teste de cima foi uma brincadeira, mas tem um objetivo concreto.
Salvo raríssimas situações, saber TUDO o que acontece no Brasil e no Mundo serve muito pouco para a vida prática das pessoas. Mas há um senso comum que diz que se você não quer ser ignorante; se você não quer ser passado pra trás; e se não quer ser o pisoteado na luta histórica de dominantes contra dominados você deve estar bem informado... a informação parece ser a sua arma, então você busca essa arma no jornal impresso, noticiário de TV e rádio, revistas, internet...
Com o tempo essa busca vira um hábito; esse hábito vira um gosto (às vezes passado de pai para filho). E se torna tão saboroso e viciante quanto qualquer outro meio de divertimento, tão cativante como uma novela. SIM, novela. Você não pode mais viver sem informação. O que era uma legítima motivação ideológica passa a ser: INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO.
Para atender a essa demanda de pessoas querendo notícia é preciso fazer notícia todos os dias do ano (famílias honestas, anunciantes, pequenos burgueses e grandes burgueses dependem disso). Então, no momento em que a “notícia não acontece” alguém inventa uma notícia, que vai impressa ou é narrada no mesmo tom de outra, que realmente tem algum fundamento ou relevância.
É horrível ouvir isso, né?! Mas é verdade!
Há dias que não acontece nenhuma novidade na sua vida; que o dia de hoje parece igual ao de ontem... há fases (semanas, meses) em que parece que nada acontece... com o Brasil e com o Mundo também é assim.
Mas o que os jornalistas devem fazer? Mandar para as bancas um jornal só contendo os anúncios, as tirinhas, o horóscopo e uma manchete dizendo:
Hoje, infelizmente, não temos nenhuma novidade para contar. Voltaremos amanhã e, se Deus quiser, com um furo de reportagem.
Ora bolas, não é assim que a banda toca!
Vamos chamar a solução para esses dias de escassez de “notícia fajuta”. Pegue um jornal impresso, leia cada matéria e com uma caneta vermelha marque aquelas que realmente mudaram algo em sua vida. Coisas que transformaram seu modo de pensar daí pra frente. Você verá a chacina vermelha sobre o papel.
Entretanto, tem um momento em que a notícia fajuta ganha ares artísticos. Digamos, traços surrealistas... nesse momento ela deixa de ser “notícia” e passa a ser Factóide. O bom factóide não precisa ter pé, nem tampouco cabeça. É o inusitado vestido de cotidiano (bonito isso...). E você, tão magnetizado pelo seu folhetim diário, nem se dá conta dele... e esse é o momento mais perigoso da mídia na sua vida!
Um cara chamado Orson Welles, ainda moleque, sacou muito bem isso. Ele trabalhava numa rádio, e num belo dia começou a noticiar um ataque feito por extraterrestres que acontecia naquele instante. Ele narrou tudo como se fosse a maior verdade e, porque ninguém “pensa” nas coisas que a mídia diz (e apenas acredita nelas) teve neguinho entrando em colapso nervoso nos EUA. Você está tão cativo daquelas “verdades” que a mídia te oferta que seu cérebro funciona no automático.
...Taí, Orson Welles teria feito uma brilhante carreira no Cocadaboa...
Mesmo que você não queira o “Show do Jornalismo” está em sua casa na forma de Linha Direta, Repórter Cidadão, Brasil Urgente, Cidade Alerta, Márcia Goldschmidt... É o “factóide verdade, jornalismo mentira”. A tragédia e a violência vendem tanto quanto beijo na boca. Em “Tiros em Columbine”, do Michael Moore, essa história é super bem contada.
Quando a histeria coletiva já está instaurada, qualquer conversa maluca é verossímil.
Foi assim que o povo todo acreditou no Sílvio Santos do Cocadaboa.
E é por isso que o SBT, Gugú (ou seja lá quem for), achou de botar dois mascarados na TV se dizendo do PCC, para ameaçar: Datena, Padre Marcelo, Marcelo Rezende e os cambaus...
Hoje o evento dá cadeia, é ameaça a vida de inocentes, é apologia ao crime.
Quando a porca torcer o rabo, ou o responsável grandalhão arruma um bode expiatório para pegar uns aninhos na detenção, ou num domingo desses vamos descobrir que tudo aquilo não passou de um adorável Telegrama Legal.
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