P.I.R.U.
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16/01/03

Eu Assassinei - Bill Gates fields forever

Eu assassinei
(Bill Gates fields forever)

Sonhei que tinha matado Eddie Torres, não com o intuito de ganhar alguns pontos para o Bolão Pé na Cova, mas que realmente, eu o tinha assassinado. Sem total gosto pela vida do meu amigo, puxei uma arma e engatilhei-lhe de presente uma bala. Daquelas que estouram a cabeça sem deixar rastros de identidade ou o olhar do susto de quem tomou um tiro à queima-roupa. Nada, sem chance. Só sabia que era meu amigo Eddie Torres por causa de sua cabeleira e, pois, que ele era quem eu estava vendo. Vou chamá-lo de Chico, como eu o conheço. Ele se aproximou de minha mulher, e pensando que ele iria roubá-la de mim, dei-lhe um tiro sem titubear ou respirar contra o que tinha que fazer. Eu o fiz. Por medo. Por puro medo. Em nenhum momento eu tinha percebido que a minha mulher no sonho tinha dado chance para ele como homem, com aquela vontade de criar e copular – gosto por sexo com o amigo, com a amiga, quem nunca teve? – e que deixei todos os longos anos de amizade que temos, do que fomos um para o outro bem para trás, findei-lhe. Reticências.

Olhei bem no fundo dos olhos da vadia, e eu a comprei. Eu a mantive debaixo dos meus braços, sob o meu comando e expulsei o que era inútil. A sua própria idéia de vida. Agora ela era totalmente minha. Sem dúvidas para uma outra pessoa. Não, eu não confiaria mais nela, e também não precisaria, agora ela é parte da minha instância de vida, do meu jogo, do que sou. Ela morre em nossa união. Sinto saudades de Chico. Seus filhos foram postos para fora, aqueles mesmos que um dia lutaram para mostrar algo ao mundo do que eles tinham por mãe. Eu a tive como inimiga, agora, como algo a mais do que eu sou. Seqüestro. Eu a tomei para mim, como tomei Chico pro que eu era. Assinei o último cheque de venda da vadia com a última gota de sangue do corpo dele, que já era.

Eu ria.

E tomado pela raiva, segui o mundo seqüestrando e rindo. Assassino. Tomando e deixando para trás o que cada um poderia ser. O que cada filho, um dia foi. Tomei mães e famílias, as mais distintas e as mais pueris. Fiz o cheque e destacava o valor. Rabiscava a rubrica da cada um que deglutia com os dedos de suas vendas. Tornei-me irreal e aniquilador – tornei-me a cara do negócio. O lado vermelho dos olhos. A felicidade estampada em canhotos e promissórias. Leilões. Fui o centro das atenções. O carro que passa por cima. Sonhei que tinha poder. Fiquei, agora, de olhos brancos. Agnósia.

Levanto do sonho e disco o telefone de Chico. E aí cara, já se recuperou do que fez e mim? Ao resto do mundo?, desligo o telefone e vejo que ainda está vivo. Mas o que fazer com as grandes empresas que juntei ao que eu era? O que fazer com as empresas que comprei em função do meu capital, dos chefes de filhos que matei pelo meu poder, das S.A.s que transformei em mim?

Sair por aí, com o poder na mão, não pode ser mero subterfúgio de seqüestro ou assassinato. E na verdade, questionar tão porcamente a compra de conglomerados e tentar colocar isso como o fim de uma amizade anterior pelo dinheiro e depois como a busca pelo poder insensato, não poderia ter sido tão mal feito se não tivesse agora a minha frente a falta de idéia e a vontade de poder escrever melhor. Eu assassinei uma boa edição, assassinei uma boa idéia, assassinei um amigo, e invejo Bill Gates, por ter feito essa porra dessa tela branca que aniquila qualquer bom pensamento. E ainda contribui para aumentar o seu conglomerado. Um dia nos mataremos.

P.I.R.U. – que está precisando dar umas fumadas pra voltar a pensar direito.
piru@cocadaboa.com

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