MrManson
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16/01/03

Meu Discurso de Formatura

Publicado originalmente em maio de 2002.

Meu Discurso de Formatura

Estou iniciando uma nova fase da minha vida, novos desafios, uma longa estrada a percorrer e mais outras babaquices cuspidas nesses discursos escrotos de formatura. No próximo s ábado será realizada a minha, e atendendo aos pedidos dos meus companheiros de turma (na verdade o pedido era para eu ficar calado e não falar merda, mas como sou "do contra"...), resolvi escrever um discurso de verdade, que represente a verdadeira índole de todos aqueles que foram estudantes universitários.

Como gosto muito de vocês, vou compartilhar em primeira mão as palavras que serão lidas no auditório lotado por mais de 600 namoradas, pais, avós e primos pentelhos. Isso mesmo, esse texto é extremamente atípico, não acostumem com tamanho grau de intimidade.

Antes de começar, peço que as poucas pessoas da minha turma que acompanham o Cocadaboa não estraguem a surpresa.

Senhoras e senhores, boa noite. Em primeiro lugar gostaria de agradecer a presença de todos, ou melhor, gostaria de agradecer vosso sacrifício. Sabemos que a cerimônia de colação de grau é o segundo evento mais chato já criado pelo homem, só perdendo para as convenções de vendedores da Amory. Para que as próximas horas não sejam tão penosas, sugiro a vocês o seguinte exercício: imaginem que todas estas jovens moças estão usando uma provocante cinta liga vermelha por baixo de suas becas.

Poderia fazer um longo discurso de 3 horas, usando todo o jargão econômico que aprendi para convencê-los, por cansaço, que a carreira de economista é uma das ocupações mais nobres da sociedade, mas seria muita cara-de-pau começar a maquiar a realidade logo em minha primeira noite como economista. Também não acho justo usar em vocês o mesmo tipo de tortura que nossos professores usaram durante 4 anos. No lugar disso, prefiro discorrer sobre um problema que está afetando toda a nossa sociedade: o sucateamento da universidade pública. Por favor, não se levantem ainda, o tema não será abordado sob a ótica de um estudante maconheiro militante da UNE.

Logo em meu primeiro período já presenciei o golpe fatal deste governo entreguista e mafioso que simplesmente irá matar nossa universidade. As eleições para reitor foram banalizadas e no lugar do candidato com o maior número de votos, o Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação resolveu nomear um de seus páreas para dirigir a UFRJ. A sabotagem estava apenas começando. A sua primeira medida estratégica foi proibir o consumo de cerveja no campus. Senhores, todos sabemos que freqüentar qualquer curso universitário sem o auxílio da cerveja é uma coisa impossível. Ao contrário dos estudantes de comunicação, que substituíram a carência de cerveja aumentando o consumo de maconha e bebendo a água do "laguinho da ECO", nós economistas ficamos sem qualquer recurso sedativo para que, devidamente alcoolizados, pudéssemos debater sobre os rumos da economia brasileira na próxima década.

A falta de cerveja também minou completamente as relações amorosas dentro da faculdade, pois sem a sua ajuda, nossas poucas companheiras de sexo feminino ficaram bem menos atraentes. A cultura do Truco, que tanto estimulava nossa competitividade e habilidade para mentir, foi destruída, pois é impossível jogar uma partida inteira estando sóbrio.

É por isso que não vejo muito futuro nesta turma de formandos e nas próximas que nos seguirão. Lamentavelmente fazemos parte de uma geração que foi obrigada a aprender em uma instituição desmoralizada pela ausência de álcool. o­nde está a seriedade da UFRJ? Até mesmo os professores e funcionários perderam sua moral. Como acordar cedo e dar uma aula de economia sem uma boa dose de whisky? Como corrigir uma pilha de provas ilegíveis e com idéias absurdas sem a ajuda de generosas taças de vinho?

Só vemos bagunça em nossos corredores, o nível dos debates caem, os argumentos fazem cada vez mais sentido e alunos não alcoólatras que não mereciam estar em uma faculdade com tamanho prestígio continuam freqüentando nossos cursos. Ninguém tem a falta de sobriedade para expulsá-los. Para citar apenas um exemplo, vou falar dos kibes do bar do Seu Antônio. Eles estão estagnados na universidade há mais de 10 anos e ninguém tem a coragem de jubilá-los.

Espero que o recém eleito Reitor Carlos Lessa, nosso admirável patrono aqui presente, fique sensibilizado com este discurso e libere imediatamente o consumo de cerveja e demais bebidas alcoólicas dentro de nosso campus. Por Deus! Somos uma universidade, e não um templo evangélico! Aja rápido! Nós somos uma geração de economistas perdidos, mas ainda há tempo de salvar os calouros que acabaram de ingressar neste semestre.

Muito obrigado pela atenção e paciência. Para finalizar o meu discurso gostaria de propor um brinde ao nosso futuro incerto e ao inventor da cinta liga vermelha. Saúde!

MrManson
mrmanson@cocadaboa.com

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