A tradicional falta de assunto que aflige a mídia no período entre o Natal e o Carnaval nos impõe manchetes sobre coisas completamente imbecis, que acabam virando moda só porque não há nada mais para se comentar. Qualquer merda pode ser sugada por esse vácuo de idéias e virar o centro das atenções. Qualquer merda mesmo, no sentido amplo da palavra, pois o que a mídia selecionou para nos empurrar goela abaixo neste ano é o zoológico da farofada no Piscinão de Ramos.
Não tenho nada contra os pobres e seu novo habitat, mas sinceramente não vejo motivo para que esta obra receba tanto destaque a ponto de ocupar quase um caderno de notícias dos grandes jornais cariocas. Até a "genial" autora da novela das 8 está tomando carona no Piscinão para apimentar aquela trama ridícula sobre um povo bundão que não fuma, não bebe, não fode e não come carne de porco. Os decadentes Fantástico e Caldeirão do Huck também estão fazendo programas especiais sobre a primeira praia artificial carioca que é feita com cocô 100% natural.
O Huck eu até entendo, o cara está desesperado para encobrir o seu fiasco no ibope e seu arsenal de mulheres gostosas já enjoou os telespectadores. Talvez um "freak-show" com as musas do Piscinão atraísse mais a atenção do público, funcionou com o Ratinho quando ele mostrou aquele menino com cara de elefante. Depois da Tiazinha , da Feiticeira, e da Bananinha, vai aparecer a Waldyrene. Ela tem celulite, é banguela, está grávida de 4 meses e veste um ousadíssimo uniforme de empregada, além disso tudo, paga um boquete no capricho, como se o jantar dela estivesse dependendo disso. E adivinha qual vai ser a praia paradisíaca onde J.R. Duran vai fotografá-la para a Playboy?
O sucesso do Piscinão não me espanta, a Casa dos Artistas já provou que o povo brasileiro é "voyeur" por natureza. Mas não se trata de uma curiosidade qualquer. Nós gostamos de assistir coisas decadentes e sujas, seres humanos em degradação e sem nenhuma perspectiva de vida. Nesse sentido, Ramos consegue reproduzir cenas comparáveis ao desespero de artistas de segunda linha buscando um lugar ao sol.
Ao vermos os pobres coitados se banhando em uma água turva e se enroscando em uma areia cheia de micoses, nos sentimos um pouco melhor. Isso é uma anestesia para o nosso cotidiano medíocre e as piadas que surgem são uma redenção para esconder o vazio que é ficar assistindo o Fantástico. O melhor é que qualquer um consegue fazer piadas com a Praia de Ramos. Trata-se de um verdadeiro oásis com 30 milhões de litros de água, composta por 15 milhões de litros de coliformes fecais e outros 15 milhões de litros de humor refinado. Não sei como ninguém ainda não colocou em prática a brilhante idéia de encher o lugar de câmeras e reproduzir as melhores imagens do dia no horário nobre. Ia ser melhor do que o "Sai de Baixo" e o "Zorra Total" juntos.
Eu até desconfio que o grande aumento de coliformes fecais na água não seja culpa dos pobres. Por mais mal educada que uma pessoa seja, ela não cagaria na própria água. Ninguém se sente à vontade nadando ao lado do próprio trolete. Por isso não ficaria surpreso se uma grande conspiração fosse descoberta, revelando que a mídia está pagando caminhões de esterco para despejarem seu conteúdo lá na praia durante a madrugada. Uma grande alegoria para variar um pouco as repetitivas notícias. A manchete "favelados se divertem nadando na própria merda" é muito mais interessante do que "população carente se diverte com nova área de lazer".
Mas não se enganem com o meu "ar crítico". Eu também estou pensando em tomar carona no sucesso do Piscinão e ganhar um pouco de dinheiro. Como moro relativamente perto da nova atração, vou montar um revolucionário conceito de turismo. A Cocadaboa Tur vai organizar passeios guiados até a Praia de Ramos, onde você poderá acompanhar de perto, dentro de um carro blindado, a imagem de milhares de favelados se banhando nas próprias fezes. Qualquer semelhança com o Simba Safari é mera coincidência. No Simba você vê frágeis animais em extinção, em Ramos você verá animais em plena explosão populacional, doidos para devorar seu braço e levar junto o Rolex nele preso.
Minha única tristeza é que alegria de pobre dura pouco, e por conseqüência a alegria dos ricos também tem data para terminar. Quando as eleições passarem, aquilo vai virar um pântano de água parada. As luzes do estrelato da Waldyrene vão se apagar e seu filho recém nascido vai sofrer com dengue, leptospirose e vermes, mas isso não dá audiência, porque pobre só é interessante quando está na merda mas está sorrindo.
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