- E aí Beleza!? - Não. Você não á sabendo? Ray Charles morreu.
Assim eu soube por um amigo (amigo burro) da grande perda que tivemos semana passada. O maestro Ray Conniff bateu as botas, foi desta para uma melhor.
Ray foi muito importante para mim tendo influência grande em minha vida. Foi ele quem me apresentou uma das drogas alucinógenas mais poderosas: o chá de meia velha.
Me lembro como se fosse hoje da noite em que o conheci. Era 1980 ou uma merda dessa, quando Frank Sinatra desembarcou aqui no Rio de Janeiro para fazer um memorável show no Maracanã. Nesta época eu trabalhava numa fábrica de toalhas, e como todo grande astro que se preze, Frank exigiu da produção do evento mil toalhas cinzentas, e coube a mim fazer a entrega das toalhas para o homem.
Cheguei por volta das oito da noite na portaria do Copacabana Palace e disse que tinha uma entrega para o senhor Sinatra. Prontamente fui atendido e me mandaram deixar as toalhas na portaria. Mas eu precisava de um recibo assinado, então me mandaram para o quarto do produtor de Frank.
Já em frente à porta do apartamento, bati forte três vezes quando de repente surgiu em minha frente uma figura velha, de barba e cabelos lisos e brancos como a neve e um sorriso cativante. Aquele cara não me era estranho. Conhecia aquela figura de algum lugar. Demorei um pouco para reconhecer, mas logo pude ver que estava diante do mestre dos magos. Não o do desenho, mas sim o real mestre dos magos. O senhor era Ray Conniff, o maestro dos magos.
Com simpatia fora do comum, Ray me convidou pra entrar e tomar um chá em sua companhia. É obvio que aceitei o convite, desconhecendo o que vinha pela frente. Sentamos numa mesinha perto da janela e começamos a bebericar um chá de gosto muito estranho e forte.
Enquanto pelejava para tomar com muita dificuldade o tal chá, Ray ria de minha cara e me contava o que estava fazendo no Brasil. Contou-me que viera como arranjador das músicas de Sinatra, mas que para não ser reconhecido usava um nome falso. "Little Niki" era seu pseudônimo.
A essas alturas estava começando a me sentir meio estranho, meio tonto, ouvindo a voz de Ray meio distorcida. Então percebi que Ray Conniff tinha posto algo naquele chá. E logo pude ter certeza disso, pois ao olhar de relance para o lado, vi Ray na ponta dos pés regendo uma dúzia de animais de pelúcia empilhados em sua cama. Ele regia os bichinhos como se eles fizessem parte de uma orquestra sinfônica. E o pior de tudo é que Ray tinha no lugar da sua cabeça um enorme algodão doce branquinho, além de estar trajando um roupão felpudo azul da cor do mar.
Depois desta visão bisonha e de uns vinte minutos de regência, Ray me pegou pelo braço e pediu-me para leva-lo para onde tivesse música e diversão. É claro que levei o coroa numa boite de mulheres de vida fácil. O que não falta em Copacabana.
Chegando lá o velho se atirou no colo de uma puta, e começou a lamber-lhe a orelha. Dava uma lambidinha e soltava uma gargalhada, outra lambida, mais uma gargalhada. Eu que já quase não me agüentava em pé de tão doido, comecei a ter mais alucinações. Vi a cabeça do Fausto Fawcett flutuando pela boite com um corpo de peixe. Ele voava pra frente e pra trás gritando: - "Viva o Cervantes! Cervantes é rei!".
Depois presenciei Ray tirando a roupa e cantando "Aquarela do Brasil" em hebraico no meio do palco da casa com uma pena de ganso no rabo. Os seguranças não nos importunavam pois Ray distribuía notas de cem dólares para todos no recinto.
Após seu mini-show, Conniff tratou de carcar uma negona daquelas bem parrudas no Motel Copinha e depois voltou para seu hotel. Ao chegar na porta do Copacabana Palace, Ray me agradeceu muito e me deu de presente um LP autografado.
E é este disco que lhes indicarei. Fica aqui minha homenagem ao bom velhinho.
Ray Conniff - Say It With Music 1960
Ray Conniff começou sua carreira arranjando músicas para outros artistas como Johnny Mathis e Guy Mitchell, mas logo passou a ser o próprio artista. Lançou uma porrada de discos, muitos mesmo. Talvez o mais interessante de seus discos e de seus arranjos, seja os corinhos que dão um toque todo belo e especial nas músicas (essa foi foda, garoto!, cada vez mais veada!).
Este disco é de 1960 e é demais. Só tem clássicos. O fino dos arranjos de coro e de orquestras. Tem a imortal versão de "Besame Mucho", além de "Summertime", "I've Got You Under My Skin", "Aquarela do Brasil" e "Night and Day".
Lamento muito não ter presenciado o show que Ray deu aqui em meados da década passada. Tudo bem, fica pro céu. Ou pro hell.
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