Amigos leitores, nesta semana resolvi expor toda minha indignação com o que pode vir a se transformar o festival, cada vez mais erroneamente denominado de "Free Jazz".
Este evento, que se eu não me engano completou o décimo sexto ano nesta edição, não pode mais ser chamado e considerado um festival de jazz. Já há alguns anos que o verdadeiro jazz, e seus fiéis seguidores, vêm perdendo espaço para um outro tipo de galera. Tipo este, que está a fim de "agitar e zoar na night!!" e não de ouvir música boa.
Podem me chamar de reacionário, conservador, anti-popular, elitista, mas eu não arredo minha opinião de que se continuar indo nesta direção, o festival vai acabar se tornando um ponto de encontro de apreciadores de bate-estacas de meia tigela, que vão para os shows como se estivessem indo para uma boite dessas que têm por aí.
Antigamente, os organizadores priorizavam a qualidade dos artistas e não a quantidade de público. Havia mais bons momentos que nos dias atuais. Eu, MEM em pessoa, pude presenciar shows extraordinários e inesquecíveis. Elvin Jones, Gerry Mullingam, McCoy Tyner, Albert King, Pharaoh Sanders, Wayne Shorter são nomes do primeiro escalão do Jazz internacional que vieram tocar aqui no festival e que me deixaram babando na gravata. Isso sem contar com os outros "fodões" que eu não assisti, mas que com certeza fizeram grandes shows. Refiro-me a Chet Baker, Herbie Hancock, Max Roach, Ornette Coleman, Horace Silver, Dizzy Gillespie, Sonny Rollins, John Henderson, Art Ensemble of Chicago, e outros mais.
É claro que eu tenho que admitir que a popularização do festival teve seu lado bom. Ao ampliar os estilos musicais dos artistas e das bandas, nomes como Kraftwerk e Sonic Youth puderam mostrar porque são o que são (dois dos melhores shows que já vi!!!). A organização também mandou muito bem ao escalar Manu Chao, D'Angelo e Femi Kuti (três shows também muito maneiros), além de também terem trazido James Brown, Stevie Wonder, John Lee Hooker, Tito Puente e George Clinton (outros shows que devem ter sido fodas, mas que eu fui impedido de ver pois estava atuando pelo Campestre Football Club, o que pra mim é sagrado).
O fato é que esse ano, a organização peidou na farofa e cagou na goiaba mole. Parece-me que, ao tentar cada vez lucrar mais com atrações "comerciais", a organização do Free Jazz acabou se perdendo inteiramente.
De novo vão me chamar de velho chato, senil, idoso, e etc, mas me incomoda muito ter que dividir o belíssimo espaço do Museu de Arte Moderna (MAM) com corjas de marombeiros fodidos e moderninhos de merda (galera Ploc é o cacete!! Tudo hippie de plástico!!). Não agüento chegar na porra do festival, e não ter lugar para parar o carro, não poder andar a vontade no Village (sempre lotado) e ter que esperar na fila do banheiro pra dar uma mijada.
A "comercialização" do evento, que eu já citei acima, pode fazer com que a qualidade musical despenque cada vez mais. Neste ano os organizadores pensaram que ao criarem um novo palco (Cream), onde só se teriam Dj's discotecando, e ao trazerem artistas ligados a música eletrônica moderna, e ao cenário "indie", o festival seria um sucesso de público. Realmente alcançaram o objetivo desejado. Acho que todos saíram no lucro. Tinha gente a sair pelo ladrão. A qualidade é que acabou indo "p'ras picas". Belle & Sebastian, Grandaddy, Sigur Ros, Roni Size, Macy Gray, Fatboy Slim, tudo um monte de merda nociva. Até o Dj Richard D. James, vulgo Aphex Twin, um cara foda, que tinha tudo pra mandar bem (visto a qualidade de seus cd's) acabou caindo na mesma chatice da "porrinhola" eletrônica pra sacudir o rabo. O show (?) do cara me deixou tão de saco cheio que fui me embora no meio, junto com meu também decepcionado amigo Channell DeCopá. No dia seguinte outros colegas me disseram que no final o show ficou bom, que o cara desceu a mão e fez a maior esporreira. Mas aí eu sou obrigado a citar as palavras de meu "letrado" amigo e capitão Mestre Salas, que presenciou o show até o fim: "Quer ouvir barulho sinistro? Se mete no meio da Voluntários da Pátria às seis da tarde que tu vai ver o que é bom!!".
Os artistas de jazz verdadeiro, continuam vindo e fazendo bons shows é claro. O problema todo está no terreno perdido para estes artistas mais "pop", e na nova atmosfera que passa a tomar conta das bonitas noites do Aterro do Flamengo.
Se a vontade dos organizadores é de gradualmente tornar o festival cada vez mais popular, eu sugiro que façam isto com maior bom gosto (Não confunda a grande obra do mestre Picasso com a pica de aço do grande mestre de obra!!). Existem no mundo artistas mais populares, que poderiam perfeitamente dar lucro, e ao mesmo tempo manter um bom nível de qualidade musical.
Só neste momento em que escrevo me vieram três nomes que certamente caberiam perfeitamente nos moldes do festival. O cantor e compositor Tom Waits, a banda Squirrel Nutt Zippers, e o astro "pop" Beck Hansen. E se der mole podiam trazer os Beasties Boys!!! (que também já vieram tocar aqui, e eu não fui pois cuidava das galinhas d'angola da minha vizinha). Certamente estes artistas fariam shows excelentes, trariam um bom público, e não chutariam a temática "jazz" que o festival já teve, pra casa do caralho. Seriam perfeitos conciliadores entre o "comercial" e o agradável.
Pode ser que os cachês destes caras sejam muito caros, ou que eles não queiram vir, mas acho que seriam boas sugestões para o evento. Pra não perder o hábito, indicarei discos de cada um dos artistas que eu citei.
Tom Waits - Rain Dogs 1985
Foi meu primeiro contato com a música do mano Tom Cavalcanti. Fiquei logo embasbacado com o timbre da voz do cara. A voz dele é fenomenal, inconfundível!! Rouca, grave, parece um latido de cachorro vira-lata na fossa. As músicas e letras são bem legais, e variam de blues "enraizados" até canções que parecem temas tradicionais americanos e polkas estrangeiras. Outras músicas têm toques latinos e de jazz antigo, e quase todas elas são encharcadas na medida certa por delicadas e sinuosas percussões, que dão um show à parte. Outro destaque (e que destaque!!!) vai pro Mark Ribot (que aliás já veio ao Free Jazz há uns dois ou três anos atrás). O rapaz arrebenta a boca do balão, fazendo excepcionais arranjos de guitarra que passeiam entre a sutileza e a tensão. SSSSOOOOOOOLLLAAAA RIBOT!!!!!!!!!!!!! Outro fato a se relatar, é a grande presença do "dinodasilvassauro" Keith Richard, tocando sua bela guitarra, fazendo vocais de apoio e dando mais classe pras já classudas músicas do Tom Selleck. É disco pra ninguém botar defeito!! Pra vocês terem uma idéia, até minha velha mãe, que tem gosto musical duvidoso, roubou meu CD e fica ouvindo o dia inteiro enquanto costura as meias e as cuecas dos netinhos queridos (Mazolinha e Josimar). Podia citar outros dos muitos discos de Tom Jobim, mas vou ficar por aqui mesmo. Não deixem de conhecer este cabra!!!!! Corram atrás!!!
Squirrel Nut Zippers - The Inevitable Squirrel Nut Zippers 1995
Banda que eu conheci há pouco tempo. Foi meu "líder-band" Nosferatu Renenoso que me apresentou tal preciosidade da música americana. O Squirrel Nut Zippers é uma banda atual que toca uma espécie de jazz antigo, com muita influência das big bands dos anos 20 e 30. Para os puristas do jazz, a banda não passa de uma mera brincadeirinha de garoto, mas eu que (quase) não sou purista de porra nenhuma to cagando pro que eles acham. Pra mim a banda tem classe pra cacete e é muito boa. Os caras mandam muito bem!! Tiram um som "vintage" classudão, e muito bem mandado. As letras são ótimas e trazem muito deboche e graça para o clima jazz das músicas.
A banda é formada por trompete, clarineta, sax, banjo, baixo acústico, bateria/percussão e guitarras. Só ficou faltando o piano, que na real não faz a mínima falta.
A vocalista lembra um pouco a Billie Holliday, o que é ótimo pra ela e pra gente. No Free Jazz seria um show perfeito pra se assistir num dos palcos menores, pois com certeza seria um show mais intimista, mas nem por isso menos empolgante. Ao mesmo tempo em que as músicas mais leves e lentas espalhariam suavidade e amor no ar, as mais pauladas fariam o salão se transformar num caldeirão fervendo, como se fosse um baile dos anos 20.
Ta certo que o Beck já veio ao Brasil no Rock In Rio 3, mas o show que eu presenciei lá certamente não foi nem a metade do que seria um show do cara se fosse num lugar mais apropriado. O som do show não estava lá estas coisas, tinha gente pra caralho vaiando o cara, e ele também parecia não estar muito no astral. Mesmo assim ainda tiveram grandes momentos.
Se o show fosse no Main Stage do Free Jazz, com certeza daria de dez. Além do som ser melhor, e caber menos gente, as músicas de Beck, exigem uma boa atenção da galera pois têm vários detalhes e efeitos. Para esse tipo de show, o clima do Free Jazz é excepcional e muito mais propício.
Acho que todos os discos do cara são muito bons. Os primeiros eu não conheço bem mas meus camaradas me falam muito bem. Mellow Gold e Odelay são fodões. São clássicos desta última década que passamos. Seguramente se fizesse uma lista dos dez melhores discos gringos da década de 90, um deles estaria lá (acho um tão bom quanto o outro). As músicas destes discos são demais. As colagens, as idéias, os samplers, as letras, o bom gosto do cara, é tudo muito bom.
O disco seguinte, Mutations é do cacete também. É quase todo baseado numa onda folk e country, mas tem uma faixa, "Diamond Bollocks", a única esporrenta do repertório do disco, que merece destaque.
Midnite Vultures, o último disco também é bacana, mas na minha opinião pior que os três anteriores. Mas há clássicos como sempre.
Beastie Boys - Paul's Boutique (1989), Check Your Head (1992), Ill Comunication (1994).
Todos os três discos são fodas até o cú fazer bico. Os caras são sinistros!! Eu tô com a maior preguiça de escrever sobre eles, então fica por isso mesmo.
Arigatô-xixi-cocô
Obs: Nesta última segunda, a Maldita tremeu ao som de Beto Barbosa!!!
O Cocadaboa
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