Há um tempo atrás (eu já era nascido) o máximo da modernidade era a saia balonê, o cabelo mulet e a Lambada. Esses exemplos são a prova de que o "muderno" é um troço insuportável e te faz perder o senso do ridículo. Nunca existiria moda se o ser humano vivesse por sua própria conta e risco na natureza. E é aí que vem a mídia, o cadilaque da modernidade. Não sabemos ao certo se o "moderno" cria a mídia ou se a mídia cria o "moderno" para ter desculpa para existir; mas certo mesmo é que o "moderno" é a sacanagem mais bem bolada do mundo.
Se você não está na moda você é tido como babaca, mas se está na moda você não é tido como babaca, mas na realidade é o babaca mor - entretanto está -disfarçado, então nem ao menos consegue se dar conta disso para tomar vergonha na cara. Para tomar conhecimento do que você precisa fazer para ser moderno é só ligar a tv, ouvir rádio, ir ao shopping, abrir uma revista.... andar pelas ruas e simplesmente existir em sociedade. Se vai aderir ou não ao apelo da modernidade é uma outra coisa. E moda pode ser uma roupa, uma música, uma comida, um jeito de falar ("tudo de bom", "de um tudo", "ele é tudo" - variações de moda verbal sobre o mesmo tema: "tudo"), uma maneira de agir perante determinado tema.
Os caras da mídia escrita fazem o ranquim dos melhores bares da cidade e é justamente quando o seu bom e velho bar entra no tal circuito que ele se torna uma merda. E é terrível, de repente decidem que o boteco (templo sagrado da tranqüilidade do "chopp amigo") é que é o point. Toda a playboizada, que antes procurava os lugares arrumadinhos, começa a invadir os queridos pés sujos em busca de algo que eles não reconhecem quando diante dos olhos: a amizade com o garçom nordestino, o papo com o proprietário galego e o sem fim de histórias e confidências com toda a sorte de retirantes do aparelho urbano. Aí, duas linhas depois, vejo a descrição das "iguarias" da "moda": caldinho de feijão, sardinha frita, mocotó, jiló... nego sai do Mc Donald's e vai comer jiló segurando a careta; mas tá na moda, né?! (Agora com essa novela da Globo rolando na Lapa as porras dos botecos vão lotar por uns 9 meses... teremos que fazer reserva.)
Já está acalmando a febre, mas as Feiras Alternativas ainda sacodem muita gente moderninha, que vai comprar a preço de Ferrari luminárias feitas com farol de Fusca, só porque "é artístico". Uns trapos velhos de guerra, umas comidinhas estranhas... coisas que a mendiga Genilda (que a gente ajuda) iria declinar com educação caso lhes fossem oferecidas - "Ninguém merece!" - ela diria.
Uma das modernidades que me alucina é essa de sala de espera nos restaurantes "bacaninhas". Vai um monte de gente "descolada" fazer fila na porta do restaurante para ter direito a fazer sala para estranhos dentro do restaurante; para depois ter direito a finalmente entrar, sentar e pedir um prato caríssimo. É muita sociedade para pouca fome. Posso estar errado, mas acho que essa gente já comeu antes de sair de casa... só vão ao restaurante para ficar na sala de espera. E todo mundo virou gourmet. Se o indivíduo não tiver pelo menos uma "receitinha especial" está deslocado automaticamente de qualquer roda. O Renato Machado, coitado, um pudim de vinho ambulante (que seria uma ótima companhia num boteco) virou ícone da maldita moda de tomar vinho; falar de vinho; conhecer vinho e fingir que conhece vinho. E, para acompanhar, as revistas em TODAS as edições trazem uma matéria sobre o tema. Vinho é vaso dilatador, a mulherada bebe e fica com beiçola... mas toque o povo a fazer "glugluglu"!
Tatuagem. Agora TODO MUNDO tem que ter uma tatoo. Malditas matérias sobre o tema fizeram os mudernos aderirem a isso. Hoje em dia todo mundo ou tem uma tatuagem, ou vai fazer uma (mostram o lugar e contam em detalhes a imagem onírica que vai completar "seu jeito particular de ser" - o engraçado é que todos tiveram a mesma idéia para ficarem "diferente dos outros"). Piercing é a mesma merda, com a diferença que quando estiver na época da fralda geriátrica, quem tiver pegado leve num piercing não vai se sentir tão patético quanto os "diferentes" das tatoos.
A rigor os veículos de comunicação deveriam dizer como o mundo deve se comportar e o mundo deveria acatar, se comportando da forma com que o veículo falou. Mas isso em tese, pois não consigo imaginar para quais pessoas do meu país as revistas que vêm no domingo com meus jornais estão falando. Não sei de que lugares eles tiram aquelas matérias, já que o mundo, pela ótica das revistas dominicais, é tão maravilhoso e deslumbrante. No Rio de Janeiro (que parece que é todo formado por um belo litoral e sempre faz sol) temos a revista de Domingo e em São Paulo é a Revista da Folha, no resto do país eu não tenho a menor idéia; então procure uma das duas e entenda o que estou falando ou me mande um mail dizendo qual é a sua versão regional.
Os produtos, coisas que não sei a função e objetos (que imagino sem função alguma) que vêm nos guias de compras e afins têm preços tão fora do contexto da realidade do brasileiro comum que desconfio não ser um brasileiro comum... estou mais para um Somali... só pode ser. E são coisas tão cool que tenho medo de parecer um aborígene ao questionar o porquê delas existirem. Numa dessas páginas vejo uma bandeja de aproximadamente 40x30 centímetros que leva uma almofada grudada na base - boa para quem gosta de comer no sofá, como diz a legenda - sendo vendida pela bagatela de 95 mangos. Não era de ouro, cristal ou sequer vidro temperado. É uma "tabuinha" de madeira com travesseirinho embaixo. Uma outra, de borracha, custa 98 reais... e porque? Porque sim, tá na moda e custa isso. É o design... diz minha calada intuição.
Mas no rol das "Mudernidades" impressas é a Revista da Folha a que mais me surpreende. Me sinto um paleolita com tamanha liberdade sexual. Lá tem uma coluna cativa incentivando a mulherada a "dar" mais, melhor e sem culpas; uma pro homem macho tocar seu lado fêmea, mas sem perder a macheza; uma GLS para a coluna do meio; uma sado masoquista presidida pela Barbara Gancia (uma Mulher Maravilha de cintura e voz grossas) e - pasmem - uma vastíssima seção de classificados sexuais. E isso tudo no domingo, dia do Senhor!!! Não que eu não aprecie modernidades sexuais - muito pelo contrário (escrever no Cocadaboa é a prova disso) - mas fico preocupado com o fato das sacanagens estarem na sala de estar das convenções e que para ser vanguardista, como cabe a um autor do Cocadaboa, eu tenha que procurar um seminário religioso. Quando a Madonna sai da cama e vai pra mesa eu, juro, pulo pela janela.
Sherlock Holmes da Silva - pela moral e bons costumes, pelo menos aos domingos de manhã. sherlock@cocadaboa.com
O Cocadaboa
é aconselhável apenas para maiores de 18 anos. Seu conteúdo
é 100% humorístico e/ou mentiroso.
Quer nos processar? Boa Sorte! Nosso site está hospedado na Eslovênia. Orgulho de ser Esloveno! pulseiras neonpulseiras de identificacao