Eddie Torres
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14/01/03

Morte LIVE!

Publicado originalmente em agosto de 2001

Morte Live

Ao vivo, em cadeia nacional, assistimos em 1985 ao cortejo fúnebre do símbolo da democracia Tancredo Neves. Foi a primeira transmissão televisiva de um enterro. E foi em grandíssimo estilo. Morre o Presidente da República! (Ainda tem gente que espera que aconteça de novo, porém isso é outro assunto...). Pela primeira vez a sociedade chora diante da TV com o drama da vida real. Uma espécie de frenesi tomou conta da população que soluçava vendo o velhinho carecote vestindo o pijama de madeira. Ganância? Morbidez? Quem sabe? A única certeza que pudemos tirar disso tudo, era que a morte era um bom negócio. Quem não se emociona quando ouve Milton Nascimento cantando "Coração de Estudante"? A música se tornou o hino de Tancredo Neves. Até hoje isso ecoa no imaginário da sociedade que ainda lembra do bom velhinho como a esperança de salvação de um Brasil recém saído de uma ditadura "mal'dita' e 'dura'" (no pior sentido das duas palavras).

Após essa fatalidade, a televisão descobriu um novo caminho para as minas com esse seu marketing macabro. E o público acabou tomando gosto por desgraças e morte de celebridades. O segundo da lista, foi o eterno comunicador Abelardo Barbosa, o Chacrinha (para os mais jovens, Chacrinha era o Faustão de antigamente). Outro chororô em cadeia nacional. Flashes ao vivo a todo momento, depoimento de amigos famosos, da família, o choro do cidadão humilde, que perdia seu maior adestrador. "Quem vai querer o bacalhau da Elba Ramalho? Quem vai querer o abacaxi do Wanderlei Cardoso?"...provavelmente as mesmas pessoas que, espetacularizadas, assistiam Chacrinha ir pro buraco sentados em suas poltronas (que cemitério nenhum proporciona).

Chegando os anos 90, a febre dos enterros televisionados volta com força total. Os executivos da mídia deram graças a Deus, por ter empacotado muita gente famosa, dando um bom lucro para eles. Diga-se se então que os anos 90 foram anos de "matar" (ignorem o trocadilho sem graça). Cazuza, Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, Leandro, Renato Russo entre outros. Nunca se vendeu tanto merchandising depois de morto. E isso é fato comprovado por estatística: o número de CDs, camisas e outras bugingangas memorabilia vendidos desses artistas triplicaram depois de suas mortes.

Mas o Brasil não foi pioneiro nisso...pra variar nós nos atrasamos alguns anos. Das minhas vastas pesquisas no assunto, descobri que a primeira e talvez a maior choradeira mundial, foi quando deu-se a notícia da morte de John Kennedy. O marketing em cima da morte daquele herói nacional foi tão grande que dizem que até russo e chinês estavam chorando...Isso me leva a crer, que além de cretino, o Brasil é um país baba-ovo até nas desgraças. É claro que antes disso tivemos o suicídio de Getúlio Vargas...pena que na época a televisão brasileira era pior que o SBT e a Globo juntas em dia de domingo quando morre alguém ou tem jogo de decisão, e não cobriu tão bem aquele dia trágico, quando o maior fascista vira-casaca do Brasil resolveu "deixar a vida para entrar para história".

Porém o caso mais sinistro foi a morte da princesa do mundo, a Lady Die, digo, Di. Uma história mal contada de um acidente trágico envolvendo um segurança, um motorista, perseguição de jornalistas Hell's Angels, um magnata, uma princesa, uma capotada fudida e a imprensa mundial perturbando o mundo com imagens da princesa fazendo boas ações no mundo. O que me faz lembrar que todo mundo quando morre vira anjinho (igual uma recente figura política foi pra COVAS e tem o mesmo nome daquele cara que te carcou atrás do armário...sabe quem é?). E muitos outros ainda estão por vir! Aguardem a morte da Xuxa, do Pelé, do Roberto Carlos...aí sim vocês verão o que é um chute 'mortal' no saco dos telespectadores!

Eddie Torres (que não é papa-defunto como o Sr. Augusto Liberato, mas é patrocinado pelo Bolão Pé-na-cova 2001)
eddietorres@cocadaboa.com

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