Eddie Torres
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14/01/03

Síndrome do moderninho

Publicado originalmente em julho de 2001

SÍNDROME DO MODERNINHO

Vamos ver aquela exposição, daquele artista muito louco que ninguém conhece num ateliê em Santa e depois vamos tomar um choppinho na Lapa. A gente pode conversar sobre a influência cósmica na discução da ética em Nietzsche e escutar um chorinho com o conjunto de um pessoal de uma faculdade de comunicação qualquer dessas. A vida do moderninho é uma atividade cultural incessante. É um "fosso" de conhecimento em eterna expansão. Essa raça que parece estar se proliferando cada vez mais no meio universitário em geral está ganhando força e já pode até se sindicalizar, só pra poder inventar alguma coisa que os faça aparecer em alguma coluna "anti-social", porque o que esse povo gosta mesmo é de aparecer, mas dão preferência a algum lugar o­nde a burguesia possa usufruir em paz da sua mediocridade sem ser incomodados pelos alienados e alienígenas.

A casa do moderninho parece um Centro Cultural, o­nde você encontra tudo que é tipo de bujinganga culturalizante. Desde um poeminha de Fernando Pessoa num quadrinho atrás da porta até uma carranca baiana que repousa no canto da sala observando e rosnando para os amigos "cú" dessa gente "cool". O moderninho curte também fazer aquelas reuniõesinhas pra lá de chatas. Tá certo que essa gente perde a linha e enche o pote, ainda mais quando resolvem "valorizar o produto nacional" e entornam uma garrafa de Caninha da Roça, tudo em nome do nacionalismo pedante dos nova-iorquinos de Copacabana.

Mas não tem nada que irrite mais o moderninho do que a ignorância passiva do populacho brasileiro, a quem ele declara seu amor em prosa e verso. "Mas é a cultura do morro. Uma reflexão autêntica sobre a situação do miserável do Brasil" justifica o moderninho para o seu companheiro de bilhar. Mas quando o filho da empregada aparece cantando o Bonde do Tigrão, o moderninho sobe nas tamancas e quer a todo custo civilizar aquele primata que ousa ferir sua intelectualidade com a grosseria favelada do funkeiro negro do cabelo louro.

Porém não é tão ruim quanto parece. Ser moderninho, não é ser um chato como disse uma vez Darcy Ribeiro, mas é ser um pouco daquilo que nós mortais, queremos ser às vezes...principalmente quando queremos ser aquilo que não podemos ser na totalidade da cronologia de nossa pseudo-vida: Uma pessoa confusa e esnobe.

Eddie "Kid Double-Dealing" Torres (The depressed socialite from the streets of SoHo)
eddietorres@cocadaboa.com

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