Odisseu Kapyn
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13/01/03

Urna da Fama

Publicado originalmente em setembro de 2002.

Que ideologia, o quê! Que mané proposta eleitoral! Histórico político é o cacete! O que importa mesmo pra nossa população é o artista ou celebridade que apóia os candidatos à Presidência. E por que não? Dá muito menos trabalho decidir que Fulano merece seu voto porque seu ator favorito de novela diz que ele é digno do que procurar saber qual é a plataforma política ou promessas do tal candidato. Se não funcionasse desse jeito, os competentíssimos marqueteiros que cuidam da campanha de José Serra não teriam contratado para o horário político meia-dúzia de famosos para ajudar o candidato do governo a subir nas pesquisas. O instituto que define quem é o apresentador de TV mais visto é o mesmo que aponta quem será nosso presidente. Nada mais justo que convocar, então, o campeão do ibope de domingo para ancorar o programa eleitoral de Serra. Chama lá então o Gugu, mesmo que ele não seja da emissora que apóia o governo. Uma imagem (a do louro do SBT) vale mais do que mil palavras (as do careca do PSDB). E aquele público que não foram seduzidos por Gugu defendendo Serra, talvez por preferirem desperdiçar seu domingo assistindo ao Faustão, não resistiu ao KLB, aqueles meninos que deram sangue novo à música brega. Se só metade dos votos dos garotos do interior que vão votar pela primeira vez foi garantida aí, quem sabe a outra metade não se decidiu quando viu o pai e o tio de Sandy & Júnior cantando no programa eleitoral de Serra? Até acho que o PSDB deve ter pensado primeiro em contratar a dupla teen, mas os Chitãozinho & Xororó deviam estar mais baratos. Aliás, o servicinho que a dupla sertaneja aceitou na campanha mostra o valor que alguns artistas dão a suas obras. Os irmãos não devem ter hesitado nem um pouco quando vieram lhes pedir autorização para transformar seu hino em louvor à folga que vem com a sexta-feira num jinglezinho safado que exalta a segunda-feira e o trabalho. Até entendo vender a música pra Bavária, pois a proposta da música ainda estava sendo preservada. Mas inverter todo o sentido do refrão? Ah, o dinheiro. Quanto mais se tem mais se quer.

Mas não é só a grana que te leva para furadas. Muita gente boa já fez muita merda por amor. Há quem largue a carreira, uns juram fidelidade eterna a um só corpo, alguns mudam de religião e outros até perdem todos os bens por amor. Mas nunca ninguém foi tão longe como Patrícia Pillar. Bela mulher. Boa atriz. Péssimas decisões. O amor por um homem fez com que Patrícia entrasse nesse esqueminha calhorda de subir em palanques bambos, beijar criancinhas com coriza escorrendo, apertar mãos sujas de camelô, comer buchada de bode e fingir que liga para os pedidos dos pobres nas ruas. Mas isso não é nada. Pior é aceitar ir para a televisão para dizer que ama Ciro Gomes. Topar tentar convencer os eleitores que é preciso fazer como ela. Dar uma chance para que Ciro conquiste seus corações. Só faltou pedir que o eleitorado topasse um jantar com o sujeito, um uisquinho depois e uma noite bem dada na cama de um motel. Assim o povo brasileiro também se apaixonaria por Ciro. Não deve ser difícil que uma artista, por mais bonita que seja, caia numa cantada de um político. Os caras têm carisma para enganar todo uma população de uma só vez. Imagina o que podem fazer quando concentram toda sua lábia num só alvo? Ainda mais se a vítima só estiver acostumada a investidas de modernos artistas fresquinhos e bissexuais? O resultado é capaz até de tirar uma atriz de sua tendência natural no campo da política.

Qual a tendência natural de uma atriz no campo político? Votar no PT, é claro. A classe artística adora vestir vermelho, usar broche com estrelinha no peito e se engajar nas campanhas do Partido dos Trabalhadores, como se todos eles tivessem vindo das classes mais baixas da população. Não sei exatamente o que faz esses atores e músicos, muitos de grande talento, aderirem com tanto fervor aos ideais do proletariado. Será que é consciência pesada por faturar em cima deles? Será que é um sentimento de culpa por ganhar rios de dinheiro em programas de TV que não ajudam em nada na educação e na conscientização do povo? Será que foi isso que fez aquela constelação comparecer no Aterro do Flamengo para prestigiar Lula? Maldade. Deve ser só aquela gostosa ingenuidade de achar que a esquerda, com sua maior resistência em se deixar corromper, vai realmente dar jeito num país que nunca vai mudar de donos. E se os trabalhadores de verdade não ligam para a estrela impressa nos planos de governo do PT, quem sabe prestam mais atenção nas estrelas que apóiam o partido por pegar bem para sua imagem de intelectual?

Um dia nosso sistema eleitoral vai evoluir ao ponto em que as urnas eletrônicas trarão mais opções de voto. Em vez de decorar o número de seu candidato, o eleitor terá um espaço para digitar o nome de seu ator ou cantor favorito. Escreva Elba Ramalho e seu voto vai dançando para Serra. Digite Patrícia Pillar e seu voto irá abraçar Ciro. Soletre um cantor gospel qualquer e o voto louvará Garotinho. Tasque um Chico Buarque e é Lula lá. Automaticamente, será computado o voto para o candidato que a celebridade achar o melhor. E nem vai ser preciso o eleitor ficar sabendo que político foi beneficiado. Vai ser como votar na legenda. Simples. Sem arrependimentos futuros.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

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