Odisseu Kapyn
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13/01/03

O Fim de Angélica

Publicado originalmente em maio de 2002.

O Fim de Angélica

Houve um tempo em que a rainha dos baixinhos ainda temia pelo segurança de seu reino. Xuxa era ameaçada pela fundação de pequenos principados ao redor de seu território. O que mais lhe oferecia perigo era o de uma concorrente que também preenchia os requisitos para ser um ídolo das criancinhas, pois era loura, bonita, gostosinha e usava roupinhas provocantes. Era Angélica, a mocinha de perninhas grossas e coxa manchada. Por muito tempo Angélica fez o jogo do mercado. Pulava com as crianças em programinhas idiotas, gravava disco fingindo que cantava, não tinha namorado (nem penetração, portanto), lançava bonequinhas com sua cara e brinquedos com sua marca, brincava de estrela de cinema e se fazia de difícil para a imprensa pretensamente séria. Tinha até uma empresária mal-encarada, que fazia o estilo escrotinha. O papel de Marlene Matos era desempenhado pela irmã de Angélica, uma aproveitadora da fama alheia, que tratava de selecionar os jornais e revistas que podiam falar com a apresentadora. O veículos que não fosse fazer reportagens exaltando o "talento" da moça, não tinha acesso a Angélica. A lourinha só falava com revistas do tipo Amiga, Capricho, Contigo e outras porcarias que alimentam essa indústria das celebridades Miojo, ou seja, instantâneas e baratas.

O tempo foi passando e a menina gostosinha foi crescendo. Enquanto Xuxa continuava bem orientada por seus marqueteiros e encomendava uma filha de proveta com um garanhão de aluguel doido para também ficar famoso, Angélica ficou na dela. Não fez nada para substituir o trunfo que estava perdendo a cada ano. Angélica deixava de ser a ninfetinha loura para se tornar uma mulher. Tá certo que era uma mulher bonita. Mas o que não falta na mídia é mulher que só vence por ser atraente às câmeras. Portanto, a mulher Angélica não tinha nada a oferecer ao público. Nem sua virgindade. Seu hímen não fazia mais parte dos sonhos da molecada cheia de espinhas e mão cabeluda. Angélica decidiu que seu prazer sexual era mais importante que sua imagem, algo que Sandy um dia vai perceber entre uma e outra crise de choro por não poder dar para o camera-man de seu programa, que ela achou inexplicavelmente másculo e atraente. Um belo dia o público percebeu que Angélica estava namorando homens que tinham vida sexual ativa. E em outro belo dia, Angélica já não estava mais pregando a favor das pregas. Não sei se foi por isso, mas a audiência de seu programa foi caindo, perdendo para concorrentes inexpressivos. Era o que se podia chamar de o início do fim. Nessas ocasiões, alguns ídolos são orientados a encerrar a carreira. Foi a tática usado por Pelé e Seinfeld, por exemplo. O famoso "parar enquanto estou por cima". Não há dinheiro que pague a permanência em uma atividade na qual todos vão perceber que você está decadente. Maradona e Friends que o digam. E Angélica.

Nossa linda Angélica perdeu o táxi da história. Quando viu que já não ocupava a posição de antes, a moça não soube o que fazer. Angélica estava perto de seguir um caminho digno. Não tinha partido para danças rebolativas e vulgares, não forjou romances e nem tinha posado nua. Em vez de esquecer essa história toda de "artista" e fazer um curso qualquer, estudar, aprender algo de útil, montar uma empresa com o dinheiro que juntou ou simplesmente casar e ter filhos, Angélica virou "artista" de terceira. Tudo para continuar sendo convidada para a Ilha de Caras, freqüentar as festinhas de sempre e seguir pagando uma assessoria de imprensa que tentasse emplacar sugestões de pauta em revistinhas frívolas. Angélica não se importou em descer de categoria. A primeira humilhação foi posar na capa de uma revista de fofoca ao lado de Xuxa, depois de anos tentando puxar o tapete da rainha nos bastidores. Depois teve que aceitar ser coadjuvante num dos mais prejudiciais filmes já protagonizados por Xuxa. Em "Xuxa e os Duendes", Angélica não só deixava de ser estrela como também tinha um papel abaixo de outra "artista" ascendente, Wanessa Camargo. Com tudo ruindo a sua volta, Angélica perdeu também seu programa e passou a trabalhar num quadro dentro de outra atração global, o tal do Videogame do Vídeo-Show. Recentemente assumiu sua condição de biscateira e foi escalada para apresentar o mais novo reality-show clonado da Globo, o Fama. Qualquer dia Angélica vai ser ajudante de palco de Sergio Groisman na sonífera madrugada da Globo. Tudo isso porque Angélica não se tocou de um fenômeno muito em moda hoje em dia: o resgate das porcarias esquecidas. Nem tudo está perdido, Angélica. É, estou falando contigo agora, menina. Presta atenção. Vou te dar uma força porque vou com a cara da tua mancha. Só por isso.

Pára tudo agora. Amanhã passa lá no RH da Globo e pede demissão. Se você quer continuar na TV, que seja em alto estilo. Nosso plano vai levar uns sete anos. Lá para 2009, você liga para uma coluna de jornal perguntando se foi de lá que ligaram te procurando. Vão dizer que não, mas você vai responder: "Então foi de seu concorrente. Deve ser para falar sobre o convite para posar para a Playboy". Logo toda a imprensa vai estar falando sobre isso e até a Playboy vai voltar a te procurar. Faça as fotos. Deu certo para a baranga da Simony então vai dar certo para você. Diga que só aceitou o convite porque se sentiu castrada nos anos em que era apresentadora da Globo. Diga que queria se sentir mulher e aproveite para dar uma alfinetada na Sandy, que daqui a sete anos ainda deve estar dizendo que é virgem. Depois lance dois livros. O primeiro deve ser sobre seu tempo ao lado de Maurício Mattar, que até lá deverá ter morrido por causa das drogas. Contar coisas sobre falecidos é bom. Se deu certo com Adriane Galisteu, a última refeição de Ayrton Senna, pode dar certo contigo. O segundo livro terá o título "O que sei sobre Xuxa". Qualquer escritor ganha dinheiro com biografias não-autorizadas, mesmo sem ter convivido com seu objeto de estudo. Com você, deve dar mais certo ainda.

O próximo passo é uma negociação com a MTV, para lançar o "Angélica Acústico", com versão voz e violão para "Vou de Táxi" e outros grandes sucessos. É assustador, mas a MTV já está fazendo isso com o RPM. Fica tranqüila, pois você vai virar cult. Até quem hoje não gosta de você vai comprar seu DVD, dizendo que agora você é legal. Talvez você seja chamada para apresentar um programa ao lado do João Gordo, pois até lá Ferrugem já terá achado que está pronto para brilhar sozinho e terá partido para uma carreira de vocalista numa banda de rock que morrerá no anonimato. Também vai ajudar se você começar a sair com ídolos infantis de algum tempo atrás. Comece com o Juninho Bill, do Trem da Alegria, que já andou falando mal sobre esse mercado. Vai fazer bem para sua nova imagem. Depois pegue o Mike Smalls, ex-integrante do Balão Mágico e filho do Ronald Biggs. Andar com filho de assaltante também vai pegar bem. Aconselho ainda casos lésbicos com a Patrícia Marques, da dupla Patrícia & Luciano, e com qualquer uma das ex-Paquitas. Mexer com o imaginário de suas geração vai te levar às alturas. Não precisa ser duradouro se você não gostar da fruta. É tudo show-biz. Você já deve ter feito coisas piores por um retorno menor. Vai por mim. Seguindo essa tática, logo você voltará a ser o centro das atenções.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

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