Qualquer ano desses que vêm por aí, estarei sendo ridicularizado em uma instituição bancária por não saber operar direito os terminais com senha neural ou não lembrar da minha seqüência de DNA para acessar minha poupança. Meus netos vão rir por eu não entender como funciona o telefone sem voz, o videogame de íris, o DVD holográfico e tudo mais que vão inventar nas próximas décadas. Um dia vou chegar nessa fase em que muitas coisas não entram mais na minha cabeça, em que não consigo mais subir escadas de dois em dois degraus nem sentir aquela pulsante emoção ao ver uma mulher nua (ou bem vestida de cinta-liga, espartilhos e sutiã). Por isso me sinto no direito de criticar uma população geralmente protegida pela ética e por cada vez mais leis e decretos. Sim, me refiro aos velhinhos. Calma, não quero fazer como numa velha série de ficção-científica em que as pessoas eram executadas quando chegavam a uma certa idade. Também não quero fazer como o Roger Daltrey, do The Who, que, aos 20 anos e poucos anos, cantava em My Generation que esperava morrer antes de ficar velho (mal sabia que ia ficar velho e teria que continuar cantando a mesma coisa para sobreviver). Quero ficar velho, sim. Mas quando chegar lá não quero ser injusto como são os velhinhos de hoje, que usufruem e às vezes até abusam de uns privilégios com os quais não concordo.
Um deles ocorre no metrô. Reservaram para eles umas cadeiras com cores diferentes nos vagões. A idéia é que, se você estiver sentado naquelas cadeiras e aparecer alguém com mais de 65 anos, você deve se levantar para que o velhinho se sente ali. Até aí tudo bem. Mas há um acordo silencioso entre os velhinhos. Uma tática velhaca. Quando um ancião entra num vagão meio vazio, em vez de ele ir lá para a cadeira de cor diferente, ele pega o lugar comum. E a cada estação vai entrando um velhinho que ocupa mais lugares comuns. Desse modo, eles tomam conta de grande parte das cadeiras gerais e ainda reservam para o resto da gangue as cadeiras específicas. Quando chega um cara qualquer, cansado do trabalho, querendo ler um livro em paz ou fazer anotações em sua agenda, ele só tem as cadeiras para velhinhos. Ele se senta ali mesmo, mas em breve vai entrar um setuagenário que vai impeli-lo a se levantar. O justo é que os velhinhos fossem logo para suas cadeirinhas de cor diferente, enquanto as pessoas que passaram o dia ralando na escola ou no trabalho ocupassem as cadeiras comuns. Se mais um velhinho chegasse no vagão lotado, ele se dirigiria para as cadeiras específicas e esperaria que outro companheiro de rugas se levantasse. Ou mesmo que alguém nas cadeiras comuns lhe oferecesse sua vaga. Mas definitivamente, nobreza não é algo que se adquire com a idade.
Outra injustiça se dá nos bancos. Hora de almoço, filas quilométricas. Enquanto você sacrifica seus poucos minutos de refeição para pagar uma conta ou fazer um depósito, velhinhos se dirigem para uma fila que anda cinco vezes mais rápido que a sua. Você está cheio de compromissos, prazos e problemas para resolver e está ali gastando seus preciosos minutos esperando sua vez chegar. E ao lado está aquela velhinha que não tem nada para fazer o dia todo _ além de alimentar os pombos que sujam a cidade _ sendo atendida em menos de 10 minutos. O serviço bancário se torna ainda mais lento, pois um caixa que poderia estar agilizando o atendimento das gigantescas filas é destacada para apenas para passar o dias ensinando anciões a digitar senhas ou informa-los que precisam levar o cartão para efetuar um saque. Sei que os velhinhos não têm tanta resistência quanto nós para ficar em pé. Mas podiam pensar em outra solução. Dar cadeiras para eles, com Red Bull, por exemplo. Se bobear, até os velhinhos devem ficar tristes de ficar pouco tempo na fila, pois não é uma forma de matar a enorme quantidade de tempo de que dispõem. E o pior é que já soube de algumas firmas que contratam velhinhos aposentados para ganharem uns trocados a mais indo aos bancos executar diversos serviços. Pois eles demoram menos tempo na fila dos que os office-boys. Isso não está certo.
Eles têm ainda uma série de outros benefícios que não chegam a atrapalhar a vida dos outros, como desconto em cinemas e teatros, não-obrigatoriedade para votar e entrada gratuita em ônibus. Se bem que por não pagarem passagem, muitos velhinhos pegam coletivos para viajar por apenas um ou dois pontos, aumentado a freqüência das paradas e, portanto, atrasando as viagens. Mas não vamos ser radicais. Só não entendo o porquê dessas regalias. É uma espécie de compensação por eles já não terem o mesmo vigor? Então o sistema está caduco (sem trocadilhos), pois a realidade dos anciões agora é outra. O Viagra fez com que a vida depois dos 60 e tantos não fosse mais tão miserável. Bordéis e prostitutas autônomas não cobram menos de velhinhos, pois estão cientes da potência desse mercado que vai se erguendo. Então por que ter pena dos vovôs e vovós? Eles são tão espertos quanto vocês. Ou até mais.
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