Reportagens publicadas em todo o mundo se referem a programas como o Big Brother como um "zoológico humano". E com razão. A comparação faz muito sentido, sendo que observar humanos na simples atividade de existir é mais divertido. Sempre bate uma sensação diferente quando a gente encontra representantes mais idiotas de nossa classe, que pode variar do simples lamento pela mentalidade das massas até uma consoladora sensação de superioridade. Há duas semanas fui obrigado, por uma espécie de obrigação conjugal, a ir ao Jardim Zoológico. Antigamente eu já não achava muito divertido ficar olhando aves berrando desesperadamente, uma jaguatirica andar de um lado para o outro estressada paca ou um jacaré achando que se ficar parado vai conseguir comer um dos visitantes. Depois de conhecer a Casa dos Artistas ou o Big Brother, o zoológico ficou ainda mais sem graça. O que é melhor? Ver o gorila Alexandre Frota chorando, a vaca Xaiane se enroscando com o topeira Kleber para parecer sexy e a anta Tiazinha tentando mostrar conteúdo intelectual ou ver o chimpanzé Paulinho olhando tristemente para o público? Por isso, naquele domingo de fevereiro resolvi prestar atenção não nos bichinhos encarcerados, mas nos humanos que pagaram R$ 5 para ver seus colegas supostamente menos evoluídos.
O festival de idiotices começou logo na entrada. Há um aviso na porta que diz que crianças de até certa estatura não precisam pagar. Para facilitar a aferição da altura dos moleques, há um ferro na medida especificada, posicionada como se fosse uma barra de exercícios para anões. Os pais mais tolos não eram capazes de perceber que seus filhos eram mais altos que a tal barra e mandavam que eles tentassem passar por ela. Só se convenciam que teriam que pagar o ingresso ao ver os garotos se entortando para passar por baixo da barra sem meter os córneos no ferro. Lá dentro, um dos primeiros animais que pude ver eram os que ficavam gritando "arara" para as araras e "Dá o pé, louro" para os papagaios. Passei por vários bichos que faziam coro chamando tartarugas de "feias" e fui até o setor das cobras, onde um bando apontava excitado para o alto da árvore dizendo "é uma cobra, sim!". Mais adiante percebi que os bichinhos não conseguem se controlar ao ver um urubu-rei e sempre dizem "Flamengo" com desprezo ou reverência, dependendo de seu time. No setor reservado aos micos, não precisei esperar muito para ver um espécime chamar um colega, apontar para dentro da jaula e dizer “ali você!”. Alguns grupos preferiam outras frases, como "parece contigo" ou "ih, olha lá o Roberto!". O mais curioso é que essas palavras estranhamente causavam manifestações de risos entre os indivíduos.
Algumas poucas vezes os animais encarcerados me chamaram mais a atenção do que os que estavam do lado de fora das jaulas. Uma delas foi ao ver um ouriço desmaiado com um ferimento gangrenando (alguns bichos exclamavam "acorda, preguiçoso"). Outra foi ao ter a grata surpresa de encontrar um grupo de suricatis, que a placa informativa do zoológico chamou de suricatas. Muitas pessoas, ao serem questionadas sobre que animal gostariam de ser, citam uma águia (para voar imponente pelos céus), um leão (para reinar sobre os companheiros), um coelho (para cruzar até acabar a pilha) ou mesmo um pingüim (porque é bem-vestido, como já me disse um colunista do Cocadaboa). Costumo causar estranheza ao responder que seria um suricati, animal que impressiona por sua organização social. Enquanto o grupo se diverte (estão sempre trocando gentilezas entre eles), há sempre um dos membros olhando ao redor para avisar sobre perigos. Quando o vigia vê algo suspeito, avisa a todos os outros, que fogem correndo para a toca. Se não der tempo de fugir, o suricati encara o agressor, sendo capaz até de derrotar cobras. Sensacional. É algo bem próximo de minha filosofia de vida. Mas mesmo com todas essas qualidades, os animais que chegavam perto dos suricatis só conseguiam dizer "ih, parece o Timão, do Rei Leão". O povo só sabe relacionar um suricati _ espécie que vai aprender a usar computadores antes dos macacos e golfinhos _ com um maldito personagem que é apontado por alguns sites conspiratórios como um dos muitos indícios de que a Disney incentiva o homossexualismo, já que o tal do Timão vive com um javali chamado Pumba. Também fui atraído pelo babuíno, único animal de que tenho medo. Se me entregarem uma metralhadora e me derem a opção de entrar numa jaula com três tigres listrados ou um babuíno sedado, escolho enfrentar os felinos. O babuíno é o mais selvagem dos animais e luta como Bruce Lee, com a vantagem de ainda poder morder. O babuíno me olha como se soubesse que pode me derrotar facilmente, com um pé nas costas. Mas em vez de mostrar respeito por esse matador, os animais do lado de fora só conseguiam murmurar "é o Babão", se referindo ao personagem do Cartoon Network.
O clímax de minha observação se deu na jaula dos leões. Passei por lá e vi um leão e uma leoa dormindo sossegados. Virei para minha patroa e disse que gostaria muito que aquele casal copulasse naquela hora. Fui chamado de imbecil ou algo parecido, naquele jeito meigo que só as mulheres são capazes de usar. Mas eis que Deus ou qualquer entidade sacana que costuma ser evocada aqui no Cocadaboa resolveu agir. Ouvi rugidos altíssimos e voltei para a jaula daqueles felinos. Lá estava o leão montado sobre sua fêmea, urrando. Os animais do lado de fora foram ao delírio. Uns gargalhavam. Outros ficavam nervosos e embaraçados. Houve até uma senhora que falou "Poxa, leão. Na frente das crianças!". Nenhuma piadinha inteligente surgiu. Eles olhavam um para a cara do outro, mostrando com estardalhaço sua emoção ao presenciarem um ato tão natural. Para o show ficar completo, só faltou trazerem um edredón para o casal. OK. Minha análise sobre o freqüentador típico do jardim zoológico estava quase pronta. Pena que não tinha mais nenhum bando ao meu lado quando vi uma cena grotesca em outra jaula de primatas: um macaquinho estava de quatro enquanto outro lambia-lhe o traseiro. Cadê o povo nessas horas?
Mas vi uma luz no fim do túnel. Perto de uma seção chamada de berçário, vi um casal apontando para uma plaquinha descritiva em braile. O macho da dupla perguntou "para que serve isso?". Pensei comigo: "o idiota não sabe o que é braile". No entanto, a frase seguinte do sujeito me calou os pensamentos: "o zoológico serve para a gente ver animais. Essa placa não tem utilidade. O que um cego vai fazer no zoológico?". Caramba. O cara fez a observação mais inteligente de todo este texto que estou escrevendo! Pensei em chamar a direção do zôo para prender aquele espécime e colocá-lo para cruzar com uma fêmea que passasse por lá sem falar que o hipopótamo é gordo ou que a girafa é alta. Mas ele foi mais rápido e logo se juntou ao resto do bando, se camuflando para sempre no meio de todos aqueles animais que se inscreveram no Big Brother Brasil.
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