Odisseu Kapyn
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13/01/03

Evolução Forçada

Publicado originalmente em outubro de 2001.

Evolução Forçada

Aparentemente, a evolução da raça humana deu uma estacionada. Mas a natureza deixou o freio de mão solto e é possível que a gente dê um empurrãozinho para movimentar de novo a escala evolutiva. Os meios usados atualmente para nossa mutação são lentos demais. o­ndas de celulares no cérebro, energia atômica, absorventes do tipo tampão, shampoos cancerígenos e alimentos trangênicos vão demorar mito para alterarem nossos corpos para uma futura seleção natural. O melhor é partimos logo para a manipulação genética. As novelas já vão acabar com o preconceito contra os clones. Em breve também perderemos tolos escrúpulos que nos impedem de fazermos um upgrade corpóreo. Para evitar que os cientistas percam tempo fazendo pesquisas de opinião e consultas em serviços de orientação ao cliente, aqui vão boas sugestões para a evolução da humanidade.

- Barba: A maioria absoluta dos homens reclama de ter que fazer a barba diariamente. Eliminá-la do código genético? Não, pois muitos indivíduos preferem cultivá-la por motivos religiosos, profissionais ou para reafirmação de masculinidade. A solução é projetar uma barba que cresça subcutaneamente por um mês. Uma vez a cada 30 dias ela brotará, como a menstruação feminina, mas sem sangue e alteração de humor. Basta ao ser em questão raspá-la ou apenas apará-la.

- Dentes: No futuro os humanos não precisarão de escovas de dente nem fio dental. Em vez de 28 dentes ou mais (no caso dos sisos), as pessoas terão uma só plca óssea na arcada superior e outra na inferior. Não haverá brechas para acúmulo de restos de alimentos que formam as cáries. E nem as classes mais baixas terão aquelas terríveis falhas no sorriso, com dentes faltando.

- Orelhas: Vão perder sua função e deverão ser eliminadas. Os próximos humanos não terão problemas de visão e não precisarão prender hastes de óculos em lugar nenhum do corpo. Assim, nós, que somos os mamíferos mais evoluídos, deixaremos de ser motivo de piadas entre peixes, anfíbios, répteis e aves, que vivem perfeitamente sem essa ridícula cartilagem saltando para fora da cabeça. Depois dessa etapa e seguindo os mesmos motivos, os narizes devem ser abolidos, deixando as narinas numa manifestação anatômica que impede a formação de meleca.

- Mamilos masculinos: Mais um descuido da natureza que será corrigido. Apenas uns 5% da população masculina alega ter uma zona erógena na área dos mamilos. Este tipo de minoria deve ser ignorado. A supressão do mamilo masculino, além de poupar matéria prima genética na formação do indivíduo, dificultará a produção de travestis, tornando mais fácil a identificação desses maliciosos impostores.

- Pêlos femininos: Não há muito que se mexer no corpo feminino. Uma das únicas reparações estruturais será feita em seus pêlos. Seguindo o padrão de beleza que impera nas civilizações que dominam as técnicas de programação da escala evolutiva, as fêmeas humanas não terão pêlos nas axilas. Os pêlos das pernas e dos braços terão a mesma dinâmica da barba masculina evoluída, para dar opções às mulheres que preferem cultivar membros superiores e inferiores peludos. O grande salto, de fazer Darwin babar de estupefação, será na área pubiana da mulher, o­nde as raízes capilares serão muito mais resistentes. Os pêlos poderão ser aparados, mas não se soltarão mais durante o sexo oral. Isso impedirá episódios constrangedores em que homens, depois do coito, vão para o banheiro tentar expelir algum pêlo da garganta ou vão para a cozinha tomar mel para ajudar a descer.

- Bolsa escrotal: Se as mulheres podem se submeter a uma cirurgia cesariana e evitar sua agonia mais forte, por que os homens continuam sujeitos a uma sofrimento mais terrível que a dor do parto? O próximo degrau da escala evolutiva trará os testículos armazenados internamente, em invólucros cartilaginosos, para garantir sua total segurança. É o fim do escroto ao alcance do pé de todos e o mais próximo que chegaremos do mito do super-homem.

- Apêndice: Já que aparentemente não tem função alguma no corpo humano, será trocado por um órgão multifuncional de estepe. No lugar o­nde hoje é alojado o imprestável do apêndice, ficará uma espécie de massa disforme de tecidos e membranas, que funcionará como uma reserva genética para confecção de novos órgãos para substituição de unidades danificadas por acidentes ou excessos. Ele poderá ser usado como um novo fígado, rim, intestino, baço ou mesmo pâncreas. Sem o risco de rejeição.

- Aparelho digestivo: Os cientistas já têm os meios de abolir a excreção de alimentos digeridos como a conhecemos atualmente. O novo esquema digestivo aproveitará ao máximo os alimentos, processando e reprocessando cada grama ingerido. O refugo da digestão, muito mais refinado, será eliminado junto à urina, sem odores nem cores turvas.

- Unhas do pé: É impossível dizer por que a cauda foi sumariamente eliminada do Homo Sapiens enquanto as unhas do pé continuam nascendo gerações após gerações. Elas são completamente inúteis, pois não servem para coçar nada. Sua extinção no homem evoluído produzirá melhorias de vida para soldados que usam coturnos apertados, peladeiros que jogam descalços e até homossexuais que têm os calcanhares feridos pelos parceiros.

- Genitais e aparelho reprodutor: Os pênis terão formato de gancho, para melhor atrito com o ponto G feminino. Eles terão também menos sensibilidade, de modo que demore mais a levar seus proprietário ao orgasmo sem precisar se submeter às mirabolantes e assustadoras técnicas de sexo tântrico. As vaginas, por sua vez, terão lubrificação instantânea _ com a mesma velocidade que um pênis normal leva para ficar ereto _ e centros nervosos espalhados por toda sua extensão, o que deve dar um fim ao que chamaremos de "a era das preliminares". A ovulação se dará apenas uma vez por ano e durante apenas uma semana, causando nas mulheres evidentes sinais exteriores, como coloração azulada da pele, ressecamento dos lábios e fortes odores emanados pelo pescoço. Estando a mulher consciente e os homens desestimulados, haverá drástica queda nos índices de gravidez indesejada. Será, enfim, uma nova era para a humanidade.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

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