Odisseu Kapyn
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13/01/03

O Homem Nu

Publicado originalmente em julho de 2001.

O Homem Nu

Têm rolado por aí uns e-mails convidando os internautas a visitarem um novo site do portal Globo.com, o tal do Paparazzo. O texto explica que se trata de uma página com fotos de celebridades com pouca roupa, em situações sensuais. Tá legal, mais uma forma de a mulherada ganhar um dinheiro, se expondo para os marmanjos a perigo. Mas não é tão simples. Para isca, o anúncio está usando uma foto do ator Murilo Benício sem camisa, numa pose supostamente sensual. A figura só aparece da cintura para cima (pelo menos no tal e-mail de divulgação) e não dá para sacar que o rapaz não está peladão. Mas mesmo não estando, o fato é preocupante. É um pulinho para homens de renome e sujeitos respeitáveis caírem na tentação de ganhar uns trocados para ficarem nus. Minha preocupação não vem de um puro machismo. Temo é pela sensação que a rapaziada que tirar a cueca pode ter depois. Vai por mim, galera. Não vale a pena tirar a roupa para as lentes. Por quê? Comecei a me perguntar isso há muitos muitos muitos anos atrás.

Lembro que um dia cheguei para o meu pai e lhe fiz uma pergunta que ele não soube responder de início. Não, não era uma pergunta sobre como os bebês são feitos. Meu velho foi um cara preocupado com minha educação e desde cedo me mostrava exemplares da Playboy, da Ele & Ela e da saudosa Status. Acho que também vieram por ele algumas das primeiras revistas pornográficas que vi, acompanhadas de explicações sobre o que era aquilo tudo. É bom comentar que essas edições vieram parar nas minhas mãos bem antes da puberdade. Não tinham aplicação prática ainda. Era coisa mesmo para ampliar minha cultura infantil. Bem, a tal pergunta que fiz foi "por que não se fazem revistas pornográficas com mulheres famosas?". Tive que aprender que embora tirar a roupa e fazer sexo fossem coisas naturais, ser pago para tirar a roupa não era o mesmo que ser pago para fazer sexo. Fui ensinado que se a Gretchen ou a Vera Fischer, cujos corpos desnudos eu já conhecia (pois é, a Vera Fischer já tirava a roupa para revistas há 20 anos), fossem pagas para tirar fotos transando (esse era o verbo que eu conhecia na época), ficariam mal faladas.

Estranhei, mas entendi. Minha dúvida seguinte sobre o mercado dos corpos nus foi "se as mulheres famosas tiram a roupa para os homens verem, por que os homens famosos não tiram a roupa para as mulheres verem?" Dessa vez não expus a dúvida a ninguém. Talvez eu já tivesse com a idade de ter medo de fazer perguntas idiotas e preferi aprender com o tempo. Os anos se passaram e percebi nas bancas de jornais que havia revistas com homens nus, mas com uns modelos muito esquisitões e uns títulos bem suspeitos. Vi que havia lugar para homens tirarem as roupas, mas não eram publicações para as mulheres. As revistas eram para os gays e os caras que topavam não eram atores, cantores nem esportistas. Eram sujeitinhos obscuros, que provavelmente viviam daquilo e algo mais baixo. Ainda não tinha me ligado que ali já estava a resposta para minha pergunta. Isso só aconteceu na minha idade adulta, quando há alguns anos tive a infelicidade de ver caras famosos finalmente tirando a roupa para as câmeras. E o­nde saíram essas fotos? Nas revistas para gays! Humberto Martins, Vampeta e outros machos cederam aos cifrões e viraram inspiração para o público homossexual se excitar. Foi então que a resposta me veio. Os homens famosos não fazem nu para as mulheres porque são os gays que querem vê-los! O ensaio não vai sair numa Marie Claire, numa Nova, numa Querida, ou qualquer outra revista com reportagens ou artigos que interessem às mulheres. Vai sair é numa G, Spartacus ou qualquer outra coisa assim, ao lado de uma matéria sobre o melhor lubrificante ou os pontos de pegação.

Entendo que os gays têm seus motivos para fazerem o que quiserem de sua vida sexual. Mas eles também têm que entender que não é confortável para a maioria esmagadora dos heterossexuais se sentirem desejados pelos gays. Já ouvi muitas mulheres que posam nuas dizendo que se sentem orgulhosas ao saberem que estarão sendo admiradas por milhares de homens. Duvido que um sentimento semelhante vá passar pela cabeça dos heterossexuais convictos ao se tocarem que milhares de gays estão praticando o prazer solitário olhando para uma foto de seu traseiro ou de seu falo. É esquisito. Você pode ser um cara moderno, liberal e consciente da diversidade de opções sexuais. Mas é duro saber que tem outro homem trancado num banheiro olhando sua foto. Cuidado, celebridades espadas. Vai ser raro sua foto servir de inspiração para uma gatinha solitária.

Eu disse raro, não impossível. Já vi umas colegas do trabalho de posse de uma dessas revistas para gays. Acho difícil que elas tenham comprado, mas o fato é que elas tinham um exemplar e mostraram para um grupo de homens, no qual eu me encontrava. Fiquei chocado com o golpe baixo que as revistas usam nos ensaios. Não sei se são todas assim, mas percebi algo sinistro. Os modelos lançam mão de uma tática muito espertinha para parecerem bem dotados. Eles tiram a foto naquele momento em que o membro está saindo da ereção, quando já não está em riste mas ainda conserva o tamanho dilatado. Qual a impressão que se tem? Que a coisa é grande paca já quando está em repouso. Mulheres desavisadas podem acabar não percebendo esse engodo e ficar com uma referência errada na cabeça. Eles tinham é que mostrar para elas o membro naquelas horas em que ele não está nem aí pro mundo, quieto na dele. Ou ainda, saindo de um banho frio, quando o bichinho fica tão assustado que encolhe para proporções nipônicas.

Aliás, o tamanho peniano é algo que pode dar uma freada nessa tendência do nu masculino. Quando uma artista ou esportista tira a roupa para a Playboy, ela não está necessariamente mostrando sua genitália. Os seios podem ser zona erógena, mas não são um membro sexual. A bunda também não é um órgão sexual (o sexo é anal, não nadegal). E não é comum aparecer a vagina dessa moças. Normalmente as fotos mostram só os pêlos pubianos. Só agora as mulheres de renome estão dando uma mostra dos grandes lábios, aquela parte chamada por alguns de rosbife. De um modo geral, fica mais fácil para uma mulher posar sem roupa. Você nunca vai ouvir algo como "Poxa, que decepção. Achei que Françoise Furton fosse mais apertada". Já com os atletas e atores globais a cobrança deve vir mais fácil e a grana não vai compensar a exposição pública de uma baixa centimetragem. Aí, meu irmão, não vai ter fama de galã que perdure.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

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