As barangas conseguiram sobreviver até o ano de 2001. Não pensem que isso foi fácil. Para chegar até aqui, as mulheres feias (ou qualquer expressão politicamente correta que o leitor preferir) tiveram que ralar muito para passarem adiante seus genes. Elas tiveram que se aproveitar de homens bêbados, seduzir rapazes virgens a perigo, exercer eventuais poderes político-financeiros ou até mesmo encontrar miraculosamente moços de elevação espiritual suficiente para ignorar o conceito de feiúra. Tudo isso valeu a pena, pois nossas amigas (só amigas mesmo, pois mais que isso queimaria o filme) conseguiram atingir este momento mágico da história humana. Uma era em que as barangas poderiam ser extintas de vez _ já que a valorização do físico nunca foi tão grande _ e, no entanto elas têm ao seu alcance várias ferramentas para se misturarem a princesas, musas, beldades, gostosinhas ou bonitinhas sem serem apedrejadas ou receberem uma cara de nojo de um transeunte.
A primeira técnica usada para evitar a rejeição da sociedade é cara e óbvia: a cirurgia plástica. Antes um recurso de coroas ricas, hoje em dia as plásticas estão cada vez mais populares e acessíveis. Tenho a impressão de que elas devem estar bem mais baratas. Vai ver a Estácio de Sá está formando várias formadas de cirurgiões plásticos, garantindo estágio em clínicas na Barra da Tijuca, repletas de emergentes prontas para retocar as barbeiragens estéticas de Deus. Tanta cirurgia deve ter deixado o produto bem mais barato, como espero que aconteça logo com o DVD, a TV digital e o CD-recorder (temos que deixar os riquinhos comprarem na frente e torcer pra indústria ver que a parada já pode ser vendida pros pés-rapados). Mais do que os tradicionais ajustes no nariz, orelha e beiço, a indústria da plástica criou mais ofertas para as barangas ou mulheres em geral precisando de reparos. Temos agora a lipoaspiração, a lipoescultura e, para quem esquece um rostinho esquisito ao ver um par de peitões, as próteses de silicone. Aliás, as tais próteses não vão só pros seios. Dão jeito em cinturas, coxas e pernas também. Conclusão: uma baranga pode contrariar toda sua carga genética passando numa oficina e mexer em toda a lanternagem. Um plastic, uma solda ali, uma pintura acolá e está pronta para passear pelas ruas com uma tolerável aparência de mulher comível.
Mais tem uma maneira muito mais fácil e barata de enganar os olhos dos pobres consumidores masculinos. A baranga pode simplesmente virar clubber, dark ou moderninha. É moleza. Todas aquelas roupas esquisitas de brechó, aquela maquiagem pesada ou aquele cabelo colorido na maioria das vezes esconde uma baranga. Mas o cara nunca percebe isso. Ele olha pra aquela figura, estuda o caso, pensa rapidamente na possibilidade de se tratar de uma mulher feia, mas acaba chegando a conclusão de que aquilo que ele está achando estranho é puro estilo. Chega até a pintar um tesão ("Uhnnn... Comer essa maluca deve ser legal..."). E lá se foi mais um homem enganado pela feiúra que "a pintura escondia", como diria Paulo Ricardo em tempos de RPM. Camaradas, não se enganem. Aquela clubber com piercing no canto da sobrancelha e camisa colada no sovaco é realmente feia. Aquela moderninha de cabelo mais curto que soldado e roupas de brechó é, sim, escrotinha. Aquela dark de batom preto e sobrancelha rala é sinistra mesmo. Você pode até topar um sexo livre, mas tenha consciência do que está enfrentando. Não que você não deva ir fundo caso role uma condição, afinal, você tem como motivo (ou desculpa) o fato de a menina ter estilo ou atitude. Tudo bem. Mas não se engane achando que foi o penteado, a roupa e a falta de sol que a deixaram diferente das mulheres das propagandas de TV ou das figurantes da Praça é Nossa. Claro que umas 30% das clubbers ou "mudernas" são gatinhas e se garantem para andar à paisana. Mas as 70% restantes são uma fraude e realmente não passariam pelo seu crivo sem todos aqueles artefatos para enganar radar. Diante da possibilidade de se atracar com um desses espécimes, o cara tem que avaliar se quer mesmo encarar um baranga travestida que depois pode ficar enchendo o saco com papo-cabeça, música ruim e draminhas psicológicos ou se não vale mais a pena passar no Asa Branca ou num outro forró de verdade e cair na farra com uma Raimunda assumida e autêntica, que vai estar satisfeita só por ter passado aquela noite se divertindo e dando prazer a um sujeito diferente do que os manés com quem ela já esteve andando. Questão de escolha. E de coragem, é claro.
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