Odisseu Kapyn
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13/01/03

Morte aos Pingüins

Publicado originalmente em abril de 2001

Morte aos Pingüins


Alguém já viu a nova propaganda do Hall's na TV? O anúncio mostra uma partida de tênis com dois caras na arquibancada fazendo refrescantes barulhos com a boca. Mas isso não importa. Não quero nem discutir se o anúncio é uma merda ou não. Não sei se alguém percebeu, mas tiraram os pingüins da campanha do Hall's. Lembram como eram os últimos comerciais da bala? O cara abria um Hall's botava na boca e chegava um grande pingüim por trás dele e lhe dava uma porrada (bem antes, da campanha funkeira "só um tapinha não dói"). Imagino os publicitários que bolaram a campanha discutindo como comparariam o efeito da bala a uma porrada no consumidor sem parecer uma coisa desagradável. "Bota um pingüim dando a porrada!", gritou um daqueles moderninhos de óculos coloridos. "Isso!", completou seu colega ajeitando sua gravata com personagens de desenho animado, "pingüins lembram um clima refrescante". "Mais que isso!", bradou o autor da sugestão, "Um pingüim é tão cool que ninguém se importaria de levar uma porrada dele!". Todos concordaram, encerraram a reunião e foram comemorar na noite paulista. Essa é a questão. Todo mundo gosta de pingüim. O bichinho é tão querido, que a publicidade passou a explorar demais o pobre animal. Toda hora vejo essa ave anunciando ou representando algum produto. E tudo que é demais (exceto mulher) enjoa.

Desde criança somos expostos à imagem do pingüim. Me lembro do Picolino, um pingüinzinho da Hanna-Barbera que usava um gorrinho, vivia com fome e sacaneava um cachorro lá na Antártida. Tinha também o mito do pingüim em cima da geladeira, que aliás eu nunca vi na vida real. Só vi essa situação em novelas, quando cenógrafos sem criatividade usavam esse artifício para caracterizar uma família como suburbana. Até aí tudo bem. Tinha até uma certa simpatia e curiosidade pelo bicho, que eu nunca conseguia encontrar no jardim zoológico do Rio. Mas o mal uso da imagem do pingüim começou a me perturbar. Tenho horror àquela família de pingüins gordos do Ponto Frio Bonzão (aliás, de o­nde vem esse nome? Foi uma fusão de duas empresas, a Ponto Frio e a Bonzão?). Nunca fui com a cara deles, querendo passar a idéia de um lar feliz habitado por pingüins consumidores de eletrodomésticos. Mas tudo bem. Me parecia lógico que uma loja chamada Ponto Frio tivesse um pingüim como símbolo. Também lembro do dia em que entendi finalmente que aquele símbolo na garrafa da cerveja Antártica eram dois pingüins se encarando. Pode parecer debilidade mental minha não ter percebido logo do que se tratava o símbolo, mas faz-se mister considerar que eu ainda não era consumidor de cerveja e não tinha o hábito de, depois da sétima garrafa, ficar admirando os rótulos, tentar descolá-los intactos e grudar no copo de vidro (que atire a primeira naftalina de mictório quem nunca viu outro bêbado fazer isso).

Mas o fato é que a Antártica não explorava seus pingüins. Deixava os bicho lá quietos no rótulo, que nem a Perdigão. Preferia lutar com a Brahma numa guerra de slogans e camarotes no sambódromo (bem feito pras duas, que ficaram atrás da Skol). O problema é que agora a Antártica também está apelando pros pingüins. É verdade que o comercial dela, com os pingüins que se disfarçam de seres humanos e se revelam quando encontram a cerveja, é bem feito. Mas não me conquistou mesmo. Não me identifiquei em nada com aquelas criaturas. Quer dizer que eles querem que eu me considere um pingüim? Já fiz algumas babaquices inspirado em comerciais de cerveja, como pedir a número 1 ou ficar fazendo tsssssssssssss. Mas nem com muita birita nas idéias vou fazer "qüem!" quando estiver bebendo Antártica. Não sei se é isso é bom senso ou uma reação aos pingüins. Agora tem também o Linux, aquele tal sistema operacional lá da Finlândia (se não me engano é de lá mesmo), que também adotou o bicho como símbolo. Porra! Chega de pingüim, cacete! Eu passei a vibrar quando vejo, no Discovery Channel ou no Animal Planet, um leão-marinho pular no gelo e dizimar grupos inteiros de pingüins. Passei a torcer contra os pingüins e sou capaz agora de ver todos os seus pontos negativos, do mesmo jeito que passamos a enxergar os defeitos de uma menina quando terminamos o namoro com ela. O pingüim é um ser patético. Com aquelas asas atrofiadas é a vergonha para a classe das aves. Até uma galinha consegue usar melhor as asas do que um pingüim. E aquele andar ridículo, achando que pode fugir de algum predador naquela velocidade. Aposto que nem o Batman levava a sério aquele seu inimigo. Podia ficar bolado ou se borrar de medo com o Coringa, quebrar a cabeça com os enigmas do Charada e balançar por causa da Mulher-Gato, mas tenho certeza que nunca se intimidou pelo Pingüim. Tinha pena dele. Aliás, acho que é por isso que todo mundo gosta dos pingüins. É aquela consternação pelos mais fracos, a pena pelos inferiores. Ninguém come vaca na Índia por respeito, mas ninguém pensa em assar um pingüim simplesmente porque sente pena. É bem capaz de alguém preferir comer um churrasco de gato a traçar um pingüim no espeto. Pois eu não teria o menor remorso de provar um filé de peito de pingüim. Comeria na boa, vingando os humanos que foram esbofeteados nos anúncios de Hall's.

Odisseu Kapyn

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