Odisseu Kapyn
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13/01/03

Trocadalhos

Publicado originalmente em maio de 2001

Trocadalhos


Eu costumava dizer que não existe trocadilho ruim, assim como não existe pizza ruim. Mas começo a mudar de opinião. Não quanto às pizzas, mas quanto aos trocadilhos. Na verdade, o problema não reside exatamente nos trocadilhos, mas sim no uso que as pessoas fazem de alguns deles. É algo meio “diga-me de que trocadilho abusas e te direi quem és”. Cheguei a essa conclusão depois começar a me dedicar à suprema arte do Aikidô. No início, procurei me preparar para os trocadilhos infames. Depois resolvi relaxar, pois pensei que o povo brasileiro já estava pronto para ouvir essa palavra sem falar gracinhas, afinal já atingimos a maturidade para conseguir, por exemplo, derrubar um presidente de forma democrática ou nos revoltarmos contra o Canadá no episódio das vacas loucas. Pensei que os primeiros comentários de alguém que soubesse que estou aprendendo Aikidô fosse “Ah, é aquela luta do Steven Seagal, né?”. Ledo engano, caros leitores.

Logo as pessoas vieram com os dois trocadilhos mais bestas que poderiam fazer. O primeiro tem conteúdo sexual, que é relacionar Aikidô com a frase Ai-que-eu-dou, fazendo uma insinuação de que essa luta na verdade é uma forma de confessar sua homossexualidade. Há, há, há. De novo. Há, há, há. Deveria eu dizer “vou rir para não perder o amigo” ou ainda mostrar minha mão ao colega e pedir que ele escolha um dedo para que eu use para roçá-lo em minha axila esquerda de modo que eu ria. Ou mesmo fingir que tenho uma manivela do lado do meu tórax e rodá-la imaginariamente acionando meu mecanismo de risos? Pelo amor de Deus! Que tipo de trocadilho é esse? E o pior é que minha mãe outro dia me telefonou aos risos para dizer que viu naquele horroroso programa humorístico Zorra Total, naquele quadro idiota do pai que tem um filho gay, que o personagem boiola dizia que gostava de praticar, Tae-kwon-dô, Judô, Aikidô, ou qualquer outra coisa que tenha “dô”. É para isso que estão pagando os roteiristas da Globo?

O outro trocadilho que fizeram era mais deprimente, pois nem sacanagem tem. É comparar a palavra Aikidô com a expressão Ai-que-dor, como se o praticante da modalidade vivesse com dores pelo corpo. Que patético. Foi duro ver gente que eu achava inteligente lançando mão desses trocadilhos que, tenho certeza, serão os primeiros feitos pelos chimpanzés quando eles aprenderem a falar. Será que ninguém ver que essas associações vocabulares são tão bobas quanto aquela que fazem com a palavra “pavê”. Os cientistas já comprovaram que existe uma forma mais rápida de se fazer um teste de Q.I. do que aqueles cheios de figuras geométricas e seqüências numéricas. Basta oferecer um pavê para alguém. Se ele perguntar “é p’á ver ou p’á comer”, pode classifica-lo como um ser abaixo da média intelectual. O mesmo quase acontece com a palavra peru, que tem sutilezas em seus variados usos. É aceitável a utilização de trocadilhos quando estamos nos referindo ao país. Para comprovar isso, tivemos o recente emprego do trocadilho no Casseta & Planeta, Urgente! numa piada sobre o empate da Seleção com o time do Peru. Foi algo como “o Peru enfiou no Brasil, e o pior é que foi de cabeça”. Não chega a ser brilhante, mas funciona. No entanto, usar o trocadilho para a ave em ceias de Natal ou Ano Novo lotadas de parentes demonstra fraca capacidade humorística. Quem ainda ri daquelas brincadeiras do tipo “vamos comer o peru de quem?” ou “ué, cadê a cabeça do peru?” ou ainda “gente, o peru do Fulano é tão duro” ? Sim, existem muitas famílias pelo Brasil adentro que solta essas frases como se tivessem sido criadas naquele instante.

Mas este é mesmo um país de contrastes. Ao mesmo tempo em que nossa população comete esses trocadilhos, temos uma parcela do povo que é capaz de criar trocadilhos de frases, que são mais complexos do que os trocadilhos de palavras. Alguns são feitos só para determinado momento da sociedade e não serão passados para a frente, sendo poupados do desgaste. Foi o caso da época em que o Sting resolveu aparecer mundialmente vindo para o Brasil lutar ao lado do cacique Raoni pelas florestas e os índios. Lembro que então ouvi a piada “sabe o que os índios estão dizendo? Se a gente não se raoni a gente se sting”. Muito interessante as associações reunir-raoni e extingue-sting. Simples e eficaz. Existiu outra também que contou com a ajuda do destino. Talvez alguns de vocês se lembrem que ex-presidente doido varrido Jânio Quadros, uma vez perguntado por que bebia, declarou com seu português refinado e cheio de mesóclises: “bebo porque é líquido, se fosse sólido comê-la-ia’’. Calma, isso não é o trocadilho ainda. Precisamos de outro ingrediente. Talvez vocês também se lembrem que uma prima em 18º grau de Jânio resolveu posar pelada pra Playboy, que usou como marketing o parentesco com o político. Para apresentarmos finalmente o trocadilho que ocorreu na época, é bom lembrar que a esposa de Jânio se chamava Dona Eloá. O trocadilho é o seguinte. Perguntaram (de mentirinha, é claro) ao Jânio o que ele achava de sua prima posando nua. A resposta (de mentirinha, também): “Se eu fosse jovem, comê-la-ia. Como sou velho, como Eloá”. Sensacional! Foi Deus que fez Jânio se casar com uma mulher chamada Eloá e fez com que ele fosse um cachaceiro e que botou na cabeça dele essa mania de falar um português arcaico. Tudo para que um dia um gaiato qualquer bolasse esse trocadilho único. É isso que me faz livrar a cara de Deus e acreditar que ele não deve ser injusto. Afinal, alguém que mexe as pecinhas do mundo para que um trocadilho assim aconteça deve ser um cara legal no final das contas.

Mas Deus nem sempre ajuda. Já tentei criar dois trocadilhos que não foram para frente. O primeiro foi na época em que Roberta Close, já operada a livre de seu pênis, teve um livro biográfico publicado. A edição tinha fotos de diversas fases de sua vida. Então andei dizendo que “o livro de Roberta Close tem fotos picantes e depois”. Não foi todo mundo que percebeu a sugestão de que “fotos picantes” significava “fotos com pica antes”, ou seja, “pica antes da operação”. E quem entendeu não achou engraçado. Não faz mal, não é tão boa assim mesmo. Recentemente tentei fazer outro aproveitando essa o­nda de chamar alguém de gay dizendo “esse cavalo é égua” ou “essa Coca-cola é Fanta”. Lancei o “esse Júnior é Sandy”. Algumas pessoas gostaram, mas ainda não vi ninguém usando. Tenho a impressão de que não vai pegar. Tudo bem. Tenho como consolo aqueles conhecedores de vinho, que sabem dizer a marca e a safra de uma bebida só tomando um gole e não sabem fazer nem um vinho do tipo Sangue de Boi.

Odisseu Kapyn
odisseu@cocadaboa.com

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