Sherlock Holmes da Silva
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10/01/03

Ca$amento, Tormento S.A.

Publicado originalmente em novembro de 2001.

Inspirados no recente casamento de um dos mais diletos amigos do Cocadaboa, resolvemos investigar o submundo desse evento social que norteou TODAS as sociedades desde o início dos tempos.

Ca$amento, Tormento S.A.

Sociologicamente o casamento serve como uma maneira de associação entre famílias, um jeito de enriquecimento de famílias, uma maneira de se constituir famílias, uma forma de traçar uma mulher sem arrumar problema com as famílias.

Antropológicamente ele servia para a família da noiva se livrar da filha mulher que dava muito mais preocupação, gastava muito mais e não era apta para o trabalho como os homens. E para a família do noivo, uma chavasca legalizada, com garantia de fábrica e ainda uma grana para as despesas iniciais da nova empresa, a família que era criada. Sendo assim um negócio bom e lucrativo para todos os lados.

Os leitores mais astutos já repararam que a razão desse evento está na família, e como "família é quadrilha", vamos estudar a torpeza e vilania com que elas agem conosco, jovens noivos, na busca por seus interesses escusos disfarçando-os com votos de amor e felicidade eternos e como uma corja de outros zilhões de safados tiram proveito disso.

Para começar vamos conhecer fundamentos dessa cerimônia.
Para os romanos o matrimonio era precedido por pactos férreos (romanos? era?) entre as quadrilhas, digo, famílias dos noivos e assinados pelo noivo com o presente de um aro de ferro (é verdade, pode procurar) símbolo do pacto. Pensou-se em colocar uma bola de ferro presa ao aro, mas isso dificultaria o transporte. Essa é a verdadeira origem do famoso anel de noivado.

Com os tempos essa tradição foi ficando muito mais complicada e dispendiosa (por incentivo de uma parte dos zilhões de safados) e começaram a trocar o anel de ferro por ouro e brilhantes. É de bom tom que o noivo adquira as alianças e anéis de noivado em lojas conceituadas, caras e famosas (vá à H. Stern mesmo) para que não paire dúvidas quanto ao $entimento em relação à noiva.

Aliás, $entimento foi sempre um ponto muito importante para o sucesso do matrimônio, principalmente na parte do e$$e da palavra. E os e$$es não vão só para as famílias dos pombos casadoiros.
Pensamos que o casamento se transformou recentemente numa indústria, mas devemos saber que essa já era uma corporação de ofício há muito tempo.

Na idade média, fora os gastos (que ainda temos) com: trajes, flores, bebidas, comidas, salão, templo, sacerdote, música, enxoval e tantas outras coisas inesperadas, os pais deveriam gastar com: ovelhas para o sacrifício; merda de ovelhas para serem jogadas nos noivos no lugar do arroz; cache para os bobos da corte, músicos e poetas que ficavam na porta do quarto na hora da "sobrepujança" propriamente dita, adivinhadores para prever o futuro do casal, etc...

O rosário de humilhações pessoais a que os noivos são submetidos, com o consentimento de seus entes queridos, não se extinguiu com o fim do absurdo exame do lençol após o coito. Muito pelo contrário, atualmente ele começa antes e se prolonga até o grande dia.

Para as mulheres ele consiste em: inúmeras provas do vestido, as horas infindáveis de conselhos da sogra de como "fulaninho" gosta do bife e das calças vincadas, as bolhas nos pés de tanto andar em compras, virar "mico de circo de cavalinhos" nas mãos de mulheres solteironas nos chás de panelas, sendo: pintada, lambuzada, pegar em cenouras e outros objetos fálicos e ouvir as piadas sexuais sorridente só para merecer umas colheres de pau e panos de prato, ver cara sádica do cabelereiro levantando seus cabelos com as mãos (40 cm da cabeça) te mostrando como ficará o penteado (ridículo) e dizendo: "poderoooosa!", entre outros horrores.

Para os homens: ver a família da noiva definir as prioridades da sua vida econômica, ver seu dinheiro sendo manipulado por todos a qualquer momento, ter que gastar o dobro do combinado porque o diretor de cerimonial acha mais adequado à "personalidade da noiva" um casamento de "rainha" (num castelo de ouro) a um casamento de "sereia" (numa cabana na praia), responder algo plausível à ininterrupta pergunta: "amor, será que vai dar certo?", ouvir sua sogra dizer a plenos pulmões emocionada: "um sonho não tem preço!".

No dia do casamento é uma escravidão...
Você tem que sorrir muito, para todos e o tempo todo, mesmo que isso custe uma fadiga muscular ou uma ida a um cirurgião plástico antes da lua de mel.
Os fotógrafos são os piores algozes: te arrastam, te sacodem, te ridicularizam, te imortalizam ridículo e você ainda paga caro por isso.

O casamento faz você perder a razão e personalidade. Qualquer um com um tom profissional e uma cara mais séria consegue tirar até as calças dos noivos. Faça o teste.
Diga a um deles "- A chave do carro, agora." ou "- Precisamos de 500 reais." para você ver o que acontece. Eles te dão na hora, tamanho o atordoamento a que estão submetidos.

Na história do homem um dos primeiros casos de matrimônio (modo de casar) a que se tem notícia foi o rapto das Sabinas, isto é: os Baldos jovens entravam nas tribos e raptavam as mulheres.
A tela de Rubens retrata um desses casamentos. Dê uma boa olhada nela e me responda:
Não seria tudo muito mais simples se casamento ainda fosse assim?

Sherlock Holmes da Silva
sherlock@cocadaboa.com

Recadinho Cifrado: A equipe do Cocadaboa deseja ao casalzinho dileto toda a felicidade do mundo e fazemos votos de sucesso para esse casamento que, diferente de muitos, foi feito por amor.

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