Categoria: Artigo

Minha gente, se eu pudesse voltar no tempo, voltar até aquele dia que resolvi fazer o Cocadaboa, acho que não teria feito. Não que eu me arrependa de algo. Só me convenci que investi meus neurônios na atividade artística errada. Não há nada mais injusto do que expressar a sua criatividade escrevendo.
Enquanto um escritor (dêem um desconto para eu poder me colocar neste grupo, mal ou bem já escrevi um livro) precisa reinventar a roda cada vez que senta em frente a um teclado para expressar algo, um maldito compositor pode construir uma carreira inteira em cima de alguma letra que escreveu bêbado em uma noite sem mais o que fazer.
Uma tiradinha inteligente ou uma piada bacana em um texto se esgotam assim que são lidas. Já a merda de um refrão débil mental pode ser repetido exaustivamente sem que ninguém reclame. Já viram alguém pedir bis para piada?
Aí alguém pode virar e falar: “porra, fazer uma letra, com rimas, métricas, ritmo e o caralho a quatro é bem mais difícil do que escrever um textinho de merda como esse”. Será? Confesso que nunca tentei fazer uma letra de música, mas acho que com um pouquinho de tempo e dedicação eu poderia bolar algo a altura de “Só Love”. Mas não vamos nivelar por baixo... Olhem para o Millôr Fernandes e para o Chico Buarque, por exemplo. É impossível dizer qual dos dois é o mais inteligente, o mais genial... Acho que qualquer pessoa no mundo diria que, no quesito competência, há um empate técnico. Millôr ficou famoso escrevendo. Chico compondo. Resultado? Todas as mulheres desse país sonham em dar para o Chico Buarque. Já o Millôr Fernandes teve que se contentar com a Cora Ronai.
E me digam quantas não acham o máximo o cara levar a viola para a cama e compor alguns versinhos despretensiosos após uma trepada? Agora pensem no mesmo cara, sem alterar um cílio em sua aparência, levando um notebook para escrever alguns parágrafos. Não precisa ser nenhum Nobel da literatura para descobrir qual deles vai ganhar um segundo tempo de presente e qual vai ter que usar o seu wi-fi para se virar sozinho vendo fotos no Dedada Digital.
Mas a maior desvantagem do escritor em relação ao compositor é que as obras do primeiro precisam, além de ser interessantes, fazer algum sentido. Seguir uma lógica. Ser minimamente inteligíveis. Já as letras de uma música... Bom, a discografia completa do Nirvana taí para provar que o cara pode vomitar qualquer merda impunemente. - “Um mulato, um albino, um mosquito, minha libido... Yeah!” - Gozam da tal liberdade poética para soltar coisas absurdas que encaixem porcamente em uma rima.
Falando em Nirvana... Se um cara compõe algo entupido de álcool e drogas, corre o sério risco de ser venerado pelo resto de seus dias (ou melhor, pelo resto dos dias de seus fãs). Já se um escritor se empolga e publica algum artigo mais ousado só porque tomou algumas doses de whisky e cheirou duas carreirinhas de coca, corre o sério risco de perder o emprego e ser processado por alguma minoria ofendida.
Mas escrever um texto, compor uma música... Tanto faz. No fundo, é tudo a mesma merda. Certamente as duas coisas requerem o mesmo esforço e exigem a mesma criatividade. No início da história, o escritor e o compositor eram iguais. Foi só uma questão de caminho seguido. A diferença é que o cara que acabou virando compositor colou nas amizades certas e logo arrumou outros manés para colocarem um som de fundo nas baboseiras que escrevia. Já o que virou escritor tava preocupado demais em tentar aprender coisas como pontuação e concordância.
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